Em Desconstrução http://emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br Olhares e provocações sobre a vida cotidiana: família, trabalho, amizade, educação, cultura – e o que vier pela frente Sat, 15 Jun 2019 07:00:27 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Ser multitarefa não é vantagem: é assim que vivem os animais na selva http://emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br/2019/06/15/ser-multitarefa-nao-e-vantagem-e-assim-que-vivem-os-animais-na-selva/ http://emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br/2019/06/15/ser-multitarefa-nao-e-vantagem-e-assim-que-vivem-os-animais-na-selva/#respond Sat, 15 Jun 2019 07:00:27 +0000 http://emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br/?p=549

(iStock)

Sociedade do Cansaço, de Byung-Chul Han (Editora Vozes, R$ 15), é um livro que não cansa. É fininho (128 páginas), cabe no bolso e traz reflexão inquietante para quem, de alguma forma, sente os efeitos de um mal-estar generalizado no planeta e não consegue entender bem o porquê. Han, filósofo coreano radicado na Alemanha, põe o banzo na conta do que classifica como “sociedade do desempenho”. Ele se refere ao desejo de maximizar a produção, de fazer sempre e sempre mais. De tão requisitada, essa ambição ganha ares de uma segunda natureza, habitando o inconsciente social.

A pressão por desempenho, por sua vez, desemboca no culto à chamada capacidade multitarefa. Você sabe: trata-se da habilidade, tão valorizada no mercado de trabalho, de fazer várias coisas ao mesmo tempo. Han observa o fenômeno de maneira implacável. Segundo o filósofo, não há nenhuma vantagem em ser multitasking. Ao contrário, é um baita pulo para trás. “Trata-se de um retrocesso. A multitarefa está amplamente disseminada entre os animais em estado selvagem.”

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Multitarefa como coisa de animais selvagens… Viver como um gato de pelo eriçado – em estado constante de alerta, ansioso aos sinais de ameaça – faz sentido na natureza, quando há predadores por perto e a sobrevivência está em jogo. Ao degustar seu alimento, um bicho precisa ficar esperto para que ele mesmo não se transforme em jantar de outra espécie. Dividir a atenção, assim, é uma necessidade vital nesse ambiente.

Problemas: “o animal não pode mergulhar contemplativamente no que tem diante de si, pois tem de elaborar ao mesmo tempo o que tem atrás de si”. Dito mais rudemente, os bichos não podem curtir plenamente o momento nem na hora de comer nem na hora de copular, duas experiências universais de prazer. O gozo parcial ou interrompido, convenhamos, é uma tremenda privação.

Você já entendeu aonde quero chegar… Han dá o recado e eu apenas repito: “as mais recentes evoluções sociais e a mudança da estrutura da atenção aproximam cada vez mais a sociedade humana da vida selvagem”.

Jogos de computador, redes sociais, apps diversos exigem uma atenção ampla – que dê conta de olhar para tudo – mas rasa, sem profundidade contemplativa ou analítica. É também uma atenção dispersa, que pede uma rápida mudança de foco entre várias atividades. É uma atenção intolerante com o tédio: rejeita a reflexão que, no fim das contas, é importante para a criatividade.

O olhar pessimista de Han vê conexões entre multitarefa e a degradação cultural contemporânea. A cultura, segundo o filósofo, pressupõe um ambiente em que seja possível uma atenção profunda. No século passado, o sociólogo alemão Norbert Elias formulou raciocínio semelhante. Para ele, foi a partir da supressão das ameaças de morte imediatas – quando o homem e a mulher não precisaram estar tão alerta para o risco de serem mortos por outros bichos e outros homens – que nasceram as noções de passado e presente e que a civilização foi sendo construída.

    No mundo em que as ameaças imediatas à vida estão em tese mais controladas, as origens da ansiedade são outras. A malaise contemporânea se encontra ao alcance da mão, nos smartphones, que escancaram as portas para muitas das coisas que falamos até aqui – pressão por desempenho, necessidade de dar conta de tudo ao mesmo tempo, o pulo de janela em janela…

    Não é coincidência que cresçam os relatos de vício em celular e também as pesquisas que equiparam o uso do aparelho ao abuso de drogas. Em direção oposta, ganha força a tendência da atenção plena – está aí a redescoberta da meditação e o hype em torno do mindfulness. Ao propor uma mudança de comportamento, essa contracorrente joga luz numa questão importante: quanto da ansiedade de hoje não é autoimposta? Quanto da tara por desempenho e multitarefa não deriva de nossa incapacidade de dizer não às pressões de chefes, filhos, amigos e conges, digo, cônjuges?

    Sim: estamos falando de desconexão. Você pode pensar que seu trabalho e sua vida não permitem esse – não deveria ser, mas é – luxo. Permita-me discordar educadamente com um exemplo concreto, o meu. Trabalho com internet, estou envolvido em diversos projetos e uns trocentos grupos, tenho duas filhas pequenas, enfim, um cotidiano algo caótico. Ainda assim, tenho tido sucesso com o – não deveria ser, mas é – desafio de desligar totalmente o celular num período relativamente longo, da noite de 6ª feira à manhã de 2ª.

    O próximo passo é fazer o mesmo durante a semana, a partir das sete da noite. Pode até irritar algumas pessoas (minha esposa não é exatamente uma fã da técnica). Mas tem sido excelente para curtir uma coisa de cada vez e, pelo menos por algum tempo, não me sentir numa selva.

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    Você já abraçou um pedinte? No metrô, alguém abraçou e mudou o dia http://emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br/2019/06/08/voce-ja-abracou-um-pedinte-no-metro-alguem-abracou-e-mudou-o-dia/ http://emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br/2019/06/08/voce-ja-abracou-um-pedinte-no-metro-alguem-abracou-e-mudou-o-dia/#respond Sat, 08 Jun 2019 07:00:06 +0000 http://emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br/?p=546  

    (Foto: Pixabay)

    Anunciou um nome tão comum quanto a história que viria a seguir. Ainda nas credenciais costumeiras de apresentação – desculpe incomodar a viagem, venho de longe, vivo um drama assim-assado que me leva a pedir esmola no metrô –, José da Silva travou. Começou a chorar. Naquela tarde de sexta-feira na Linha Vermelha, a anestesia do transporte público paulistano estaria temporariamente perturbada pela convulsão emocional de um homem que não aguentava mais.

    A crise se aprofunda e o transporte sobre trilhos em São Paulo vira um mercadão de tristezas. Tudo barato e ruim: fones a 10 reais, pen-drive pirata a 20, amendoim um é 2, três é 5. Há também os Josés que nada vendem, só pedem. A Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) registra aumento no comércio ambulante em vagões desde 2014. A bem da verdade, o feirão nunca deixou de existir nos ramais periféricos. Chegou, recentemente, às higienizadas linhas do metrô.

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    Faz-se de tudo para espantar vendedores e pedintes: alertas na TV dos vagões, anúncios sonoros, ameaças dos seguranças. Em vão. Se o estoque grande denuncia a atividade, vendem-se diminutas capinhas plásticas para documentos. Se a trilha sonora inibe a propaganda vocal, deixa-se o lamurioso bilhetinho. E assim a criatividade vai driblando a repressão. Suspeito que se conta, ainda, com alguma vista grossa. Dia desses presenciei um rico feirão na gourmetizada Linha Amarela. Os seguranças marombeiros também têm coração.

    Saídas? Somos 13,6 milhões de desempregados, 4,6 milhões em desalento (a desistência de procurar trabalho), 7 milhões de subocupados (que trabalham menos do que gostariam). Tudo somado, um em cada quatro brasileiros com idade para trabalhar estão fora do mercado. Muitos perderam tudo. Na cidade de São Paulo, o último Censo da População de Rua, de 2015, apodreceu de velho. De quatro anos para cá, estima-se que o número de pessoas dormindo ao relento saltou de 15 mil para 20 mil na capital paulista.

    Talvez José pensasse nisso quando chorou. Ou simplesmente estivesse cansado da invisibilidade. Se a sociedade fosse uma pessoa, seria alguém lamentável. Ao ver um pedinte no metrô, rola os olhos, finge não ouvir, se afunda no celular, vez por outra responde com alguma grosseria. A esmola não resolve, não mesmo. Se bem que um simples “hoje eu não posso” indica reconhecimento. Algum dinheiro mostra que fomos tocados por aquele sofrimento. Mas quem pode recriminar a indiferença? No Brasil de hoje, uma dose diária de insensibilidade parece indispensável para não afundarmos na miséria que literalmente esbarra em nós.

    Mas a sociedade não é uma pessoa, são muitas. E se alguém sozinho não pode tudo, pode alguma coisa. No vagão de metrô, o choro de José é amparado por uma moça não muito jovem nem muito velha. De pé no vagão, ela o abraça. Ele retribui.

    Abrem espaço para que ele se sente. No apressado intervalo entre a República e a Barra Funda, ele conta sua história: vem de Alagoas, desempregado, sem contato com a família, passa o dia pedindo em trens e metrôs.

    Algumas pessoas, não todas, prestam atenção. Outras, não todas, abrem as carteiras e vão entregando moedas e notas miúdas às mãos que se enchem rapidamente. José não se comove. Tem mais vergonha do que satisfação.

    Chega o terminal e a pequena multidão se despede. O abraço não adiantou nada e mudou tudo.

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    A escola deveria acolher (e entender) a rebeldia dos alunos http://emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br/2019/05/28/a-escola-deveria-acolher-e-entender-a-rebeldia/ http://emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br/2019/05/28/a-escola-deveria-acolher-e-entender-a-rebeldia/#respond Tue, 28 May 2019 07:00:21 +0000 http://emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br/?p=536

    (Crédito: J MIller/ Freeimages)

    “Educação contra a barbárie: por escolas democráticas e pela liberdade de ensinar”, é livro coletivo organizado por Fernando Cássio, professor da UFABC e especialista em políticas públicas de educação. A obra, que será lançada nessa terça (28) com um debate no V Salão do Livro Político na PUC-SP, reúne ensaios de 20 autores. Sou um deles. Abaixo, você lê na íntegra o capítulo “Escola e afetos: um elogio da raiva e da revolta”.

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    “Precisamos sentir mais raiva” foi o título que propus à minha coluna mensal, na revista Nova Escola, em agosto de 2017 . Comecei reconhecendo que “acessos de raiva podem nos levar a fazer coisas estúpidas”, implodindo projetos e relações há longo tempo cultivados. Mas prossegui para uma defesa desse sentimento. Procurei mostrar como nem sempre ele precisa ser associado a uma emoção negativa.

    Em certos casos, a revolta é absolutamente necessária. Citei Aristóteles, que na Ética a Nicômaco elogia quem “se encoleriza justificadamente com coisas ou pessoas”. Sustentei que a resposta a uma injustiça, mesmo que fora do tom supostamente civilizado, era preferível à submissão. E finalizei: “Às vezes, é preciso dizer com firmeza ‘Isso eu não aceito’, ‘Você me desrespeitou’, ‘Não está certo’. Saia a frase do jeito que sair”.

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    A revista foi publicada. Semanas depois, recebi um recado de meus superiores. A devolutiva era de que a coluna estava inadequada. As críticas pontuavam que o texto exalava uma violência contrastante com a linha editorial de Nova Escola. Sobretudo numa edição cuja reportagem de capa, também de minha autoria, era “Como vencer o ódio”. Soube que havia gente preocupada comigo e com a minha agressividade. Ouvi suposições de que ela poderia ter raízes na vivência do luto pela morte de meu pai, ocorrida cinco meses antes.

    A essas pessoas, argumentei que não me parecia uma expressão de problemas pessoais, ao menos não conscientemente. Mas que eu ficaria atento à eventual rispidez. Defendi a abordagem dos textos, afirmando se tratar de uma questão conceitual. Não havia e não há oposição entre uma coluna que trata de raiva e uma reportagem que fala sobre diálogo. Procurei discutir o que, a meu ver, são dois mitos: o do diálogo como varinha mágica para a concórdia e o da raiva como um sentimento que deve, necessariamente, ser sufocado em vez de problematizado.

    Inicio este capítulo com um case do ambiente corporativo para exemplificar como a dificuldade para lidar com afetos e emoções não está concentrada apenas na escola. O embaraço está por toda parte, da família à igreja, da mídia ao trabalho. O foco excessivo na dimensão racional, típica das sociedades ocidentais, varreu para detrás das cortinas a atuação dos sentimentos. No entanto, eles teimam a entrar em cena. Depressão, ansiedade, estresse, atos falhos, explosões de ira, crises de choro. A psicologia oferece provas abundantes do eterno retorno desses atores indesejados ao teatro da vida.

    No campo da educação, ensaia-se a volta por cima dos sentimentos. Os afetos ressurgem, por assim dizer, repaginados. Atendem, agora, pelo nome de “competências socioemocionais”. Segundo a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), trata-se de um conjunto de habilidades que, mobilizadas, auxiliam na resolução de “demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho”.

    Empatia, respeito, responsabilidade, flexibilidade, resiliência, determinação, autocuidado. Há menções ao que seriam competências socioemocionais em ao menos seis das dez competências gerais propostas pela BNCC, o que evidencia a centralidade do tema. Alunos devem “agir pessoal e coletivamente com autonomia” (competência 10); “fazer escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida” (competência 6); “conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua saúde física e emocional, compreendendo-se na diversidade humana e reconhecendo suas emoções e a dos outros, com autocrítica e capacidade para lidar com elas” (competência 8). E assim por diante.

    Numa mirada de relance, os holofotes sobre o papel das emoções na educação parecem bem-vindos. Há farta pesquisa atestando o vínculo entre sentimentos e aprendizagem. E a escola é lugar de intensa convivência afetiva. As interações despertam nas crianças e nos jovens (e nos adultos que deles se ocupam) sentimentos tão díspares e intensos quanto a alegria, a tristeza, a inveja, o orgulho. Todos com repercussões em questões essenciais como desempenho escolar, evasão e abandono, violência, bullying e indisciplina.

    Mas falar de afetos e emoções na educação não significa, necessariamente, falar de competências socioemocionais. Buscando a gênese dessa proposta, um grupo de pesquisadoras da Faculdade de Educação da Unicamp aponta um suposto consenso de que a maneira mais eficaz de observar a personalidade humana seria pela aferição de cinco dimensões, conhecidas como Big Five: abertura a novas experiências, extroversão, amabilidade, conscienciosidade e estabilidade emocional. É justamente esse pentágono afetivo que serviria de base para competências socioemocionais como as listadas pela BNCC.

    Tudo certo, só que não. Como mostram as autoras, o tal “consenso” é falso. A noção de Big Five colocaria em polos opostos os aspectos comportamentais e os cognitivos, o que só faria sentido se considerássemos que as competências escolares se reduzem ao domínio técnico. Numerosa bibliografia sustenta o inverso, a ideia de que compreensão e expressão andam em par e que dicotomias do tipo razão/sensibilidade, cognição/emoção e corpo/mente precisam ser superadas.

    Também é alvo de críticas o conceito de personalidade como um feixe de disposições estáveis e imutáveis. A influência da cultura e da sociedade, na forma da experiência de determinadas situações sociais que se alteram no tempo – enfim, a perspectiva histórico-cultural do amadurecimento orgânico – é destacada por referências como Henri Wallon e Lev Vygotsky. Contexto, conteúdo e significado das situações vivenciadas conferem um complexo dinamismo à personalidade, conforme ilustram as autoras com este elucidativo exemplo:

    Crianças podem ser muito persistentes em certas situações e pouco persistentes em outras. Alguns sujeitos serão extremamente atentos e interessados em certas atividades e não em outras. Algumas atividades serão capazes de despertar a criatividade em alunos de diferentes idades, em diferentes contextos. Jovens podem ser muito perseverantes em relação a certos objetivos e pouco perseverantes quando esses objetivos não são genuinamente apropriados por eles. O mesmo se aplica à criatividade, curiosidade, disciplina e outros atributos, e se torna especialmente relevante quando se pensa na escola, com suas demandas e regras de participação, muitas vezes distantes dos valores que regem as comunidades de origem dos alunos.

    Como uma proposta controversa foi elevada ao status de consenso e assumiu protagonismo na BNCC é assunto mais da política que da ciência ou da educação. O que restou de fato é um “cumpra-se”: o prazo para a implantação da BNCC já está correndo, sendo 2020 a data limite para que ela se faça sentir em sala de aula.

    Por mais que se insista que “Base não é currículo” (estes estão sob responsabilidade das redes e escolas) e que a BNCC precisa ser articulada com as Diretrizes Nacionais Curriculares para a Formação de Professores, sua publicação apresenta, para um futuro imediato, um enorme desafio para educadoras e educadores. Como trabalhar as tais habilidades socioemocionais se o tema não faz parte da formação inicial e, até recentemente, da capacitação em serviço?

    Dois caminhos se apresentam. O primeiro, uma pinguela precária, é o da atuação intuitiva. Professoras e professores trabalham o tema sem referencial específico, ancorados num saber baseado nas experiências imediatas. Um artigo de Luciene Tognetta exemplifica como o juízo professoral tende a compreender os aspectos afetivos. Numa pesquisa de 2011, conduzida pelo Grupo de Estudos de Educação Moral (Gepem) da Unicamp/Unesp, educadores e educadoras responderam a um questionário sobre afetividade no cotidiano escolar. Entre as conclusões, a nada surpreendente revelação de que a maioria considerou mais importante “premiar o comportamento de um aluno” do que “demonstrar indignação por alguma situação de injustiça”.

    A afetividade, assim, é entendida como sinônimo de carinho e elogio a quem “fizer por merecer”. O aluno modelo é ordenado e dócil. A heteronomia e o respeito às normas por medo da punição passam a ser princípios reguladores das relações escolares. Prêmios aos que obedecem, castigos aos que transgridem.

    Não é outro o modus operandi dos colégios militares defendidos pela atual gestão regressiva do MEC como exemplos de qualidade na educação. Como faltam evidências para sustentar tal crença, seu único referencial só pode ser o senso comum e o entendimento de que o controle das emoções é resultado da obediência ao comando que vem de outras pessoas.

    O segundo caminho para o trabalho com aspectos afetivos é o da privatização da oferta de soluções pedagógicas. Se abordar habilidades socioemocionais é obrigatório, mas não sabemos como fazê-lo e o Estado não nos diz como, que tal adquirirmos algo pronto e darmos a questão por encerrada? Abre-se, assim, uma convidativa autoestrada para a tecnocracia domesticadora, que mercantiliza o reforço à autocontenção como uma panaceia para todos os males da escola.

    A divulgação da BNCC potencializou a demanda por “soluções” desse tipo, concebidas e comercializadas por grandes conglomerados. Nos programas ditos “estruturados”, a escola adquire um conjunto de produtos (livros, videoaulas, consultorias) que prometem trabalhar todo o conteúdo socioemocional da BNCC. Na rede particular, o custo das apostilas é repassado aos pais. Nas escolas públicas, geralmente absorvido pelas secretarias municipais e estaduais, em compras realizadas fora do âmbito do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD).

    Com referenciais frágeis, a abordagem dos aspectos afetivos tende a reforçar ora o paradigma da eficiência e da produtividade, ora o enquadramento disciplinar. O Líder em Mim, programa oferecido pela Somos Educação, adquirida em 2018 pela gigante Kroton Educacional, é um exemplo do primeiro caso. Promete “promover a mudança comportamental em educadores, crianças e adolescentes” por meio da adaptação para a educação básica do livro Os 7 hábitos das pessoas altamente eficazes, best-seller do binômio administração/autoajuda do consultor norte-americano Stephen Covey. Já a Escola da Inteligência é um exemplo da segunda derivação. Garantindo “melhoria dos índices de aprendizagem, redução da indisciplina, aprimoramento das relações interpessoais e o aumento da participação da família na formação integral dos alunos”, é baseada nos escritos de Augusto Cury – “teorias” do “Dr. Augusto Cury”, conforme o site do programa –, ficcionista e autor de autoajuda mais lido da última década no Brasil.

    A conceituação caricatural sobre afetividade se esquiva das emoções consideradas “difíceis”. Quando o faz, incorre no risco da estigmatização dos comportamentos desviantes. Volto à raiva do início do texto. Na BNCC, essa palavra – e mais “indignação” e “cólera” – não aparece sequer uma vez nas seiscentas páginas do documento. Não é à toa, uma vez que a concepção de competências socioemocionais trabalha para a sua supressão. Smolka cita o parentesco da proposta com a chamada “alfabetização emocional” preconizada por Daniel Goleman. Para o jornalista e psicólogo norte-americano, crianças agressivas e difíceis de lidar precisam ter a agressividade domada, evitando que percorram o caminho “da violência e da criminalidade”.

    Em Pedagogia do oprimido, Paulo Freire conceitua a rebeldia como um momento de despertar. Quando os oprimidos tomam consciência de sua opressão e deixam de aceitá-la com fatalismo (“é a vontade de Deus”) e autodesvalia (o sentimento de que são incapazes), explode a raiva e a rebelião. O que fazer com a revolta inexplicável e sem objetivo definido, muitas vezes horizontal, contra os próprios companheiros ou o equipamento público que os serve?

    A escola transformadora não suprime a rebeldia e nem a condena de antemão. Ao contrário, busca desvelar suas causas, canalizando o rancor destrutivo para o questionamento das injustiças e propondo ações para sua transformação. A raiva e a rebelião são entendidas como parte do processo para a formação de indivíduos autônomos, capazes de crítica e reflexão.

    Ao propor o desenvolvimento de um sujeito afetivamente inatacável, sem considerar as etapas que levam a ele e sem propor caminhos para a sua (auto)construção, a BNCC presta um desserviço a alunos e educadores, responsabilizando-os previamente pelos maus resultados que surgirão. Como exigir de um estudante negro e da periferia que faça escolhas “livres e com autonomia” para seu “projeto de vida” numa comunidade miserável e embrutecida pela violência? De que maneira sugerir “resiliência” à estudante que enfrenta o assédio no transporte público a caminho de uma escola sem infraestrutura e sem professor? Como cobrar que educadores e educadoras “promovamos direitos humanos” quando seu direito constitucional à greve é duramente reprimido pelas forças do Estado?

    Vivemos num mundo injusto e num país abissalmente desigual. É compreensível e indispensável que alunos e professores sintam raiva, que se indignem. Que a escola esteja a serviço da transformação da indignação em ação, trabalhando a raiva e a revolta como insumo básico nas discussões dos aspectos afetivos no ambiente escolar. Por muitos anos como editor de Nova Escola, colei acima da tela do computador uma frase atribuída ao filósofo iluminista Condorcet: “A verdadeira educação faz cidadãos indóceis e difíceis de governar”. Deixei o emprego e o computador. Sigo levando comigo essa máxima.

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    É hora de abandonar de vez o conceito de família desestruturada http://emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br/2019/05/18/e-hora-de-abandonar-de-vez-o-conceito-de-familia-desestruturada/ http://emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br/2019/05/18/e-hora-de-abandonar-de-vez-o-conceito-de-familia-desestruturada/#respond Sat, 18 May 2019 07:00:22 +0000 http://emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br/?p=524

    Foto: Pixabay

     

    Segunda-feira era o pior dia. Pedro (nome fictício) apontava no portão da escola com fome, sujo e inquieto. Os professores se alarmavam. Aluno do Fundamental com deficiência intelectual, o menino pouco aprendia. Vivia numa casa com outros seis irmãos, a mãe e um pai sobre quem recaia suspeita de violência doméstica.

    “A equipe nos apresentou o caso como um típico exemplo de ‘família desestruturada’”, conta Liliane Garcez, psicóloga e educadora que atua como uma das moderadoras do Diversa, projeto do Instituto Rodrigo Mendes (IRM). A ONG especializada em inclusão, fazia um trabalho de formação de educadores em cinco municípios. Liliane e a colega Patricia de Brito ouviram o relato e, em seguida, sugeriram uma reflexão: será que se tratava mesmo de uma família “desestruturada”?

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    O caso fez a pergunta soar como provocação. “Procuramos combater o conceito e mostrar que a ideia de ‘desestrutura’ supõe que existe uma estrutura ‘normal’: pai, mãe casados uma única vez, com filhos, se possível dois, se possível um casal”, explica Liliane. Ecos de uma época em que o único modelo de família era a do comercial de margarina.

    Hoje, à base de muita luta, há maior aceitação para uma variedade de organizações familiares: arranjos monoparentais, com dois pais ou duas mães, criação por avós etc. O preconceito de classe, porém, persiste. A ponto de “família desestruturada” ser usada como eufemismo para família pobre. “Mulheres de classes populares sofrem um duplo preconceito”, afirma Liliane. “As pessoas se sentem no direito de questionar o número de filhos que elas têm, se são todos do mesmo parceiro e dizer coisas como ‘está no terceiro marido e não aprendeu’”.

    Binômios do tipo doença-cura, normal-anormal, estruturada-desestruturada conduzem a uma conclusão complicada: para resolver a situação, é preciso eliminar a causa do problema. Casos grave como o de Pedro poderiam indicar a entrada em cena do conselho tutelar e, no limite, a retirada da guarda. “Mas o próprio menino sempre foi firme ao dizer que queria estar com os irmãos e com a mãe. Percebemos que a melhor mãe para ele era a mãe que ele tinha”, conta Liliane. No caso de Pedro, recorrer ao estereótipo da desestrutura poderia até aliviar a consciência dos professores de que o problema estava em outra parte. Mas não contribuía para uma solução.

    O debate, então, mudou de foco: como ajudar para que se pudesse garantir para Pedro os direitos que toda criança tem – à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária? A lista do Estatuto da Criança e do Adolescente também acrescenta que estes são deveres não apenas da comunidade, da sociedade em geral e do poder público.

    “Nesse sentido, é possível pensar numa ideia de família como uma rede de relações colaborativas que precisa cumprir determinadas funções”, afirma Liliane. Ou seja, um conjunto articulado de pessoas e instituições que favoreçam o desenvolvimento das crianças – cujas atribuições não precisam estar necessariamente concentradas na figura do pai e da mãe. “Há inúmeras possibilidades de organização da família. Não interessa com quantas e quais pessoas, o importante é cumprir sua função”, argumenta a educadora.

    A colaboração ajudou a escola a tirar um peso dos ombros. Ao se articular com as secretarias de Assistência Social e Saúde, a equipe percebeu que era possível ajudar Pedro por meio de diferentes estratégias. A mãe passou a frequentar um Centro de Atenção Psicossocial, unidade especializada em saúde mental para tratamento e reinserção social. “Foi um caminho para ela se reencontrar e buscar exercer melhor suas funções como mãe”, explica Liliane.

    Paralelamente, os professores passaram a dar mais atenção às questões pedagógicas propriamente ditas. “ Em poucos meses, Pedro melhorou no autocuidado, se integrou melhor à turma e passou a se interessar mais pelas aulas”, conta a educadora. Sua família, ressignificada e ampliada, está mais pronta para dar a ele o que ele precisa para crescer.

     

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    O que as crianças podem aprender ao ver suas professoras em greve http://emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br/2019/05/15/o-que-as-criancas-podem-aprender-ao-ver-suas-professoras-em-greve/ http://emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br/2019/05/15/o-que-as-criancas-podem-aprender-ao-ver-suas-professoras-em-greve/#respond Wed, 15 May 2019 14:17:57 +0000 http://emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br/?p=527

    Na imagem, greve dos professores de SP em 2015. Neste ano, cortes são o mote da paralisação. (Crédito: Romerito Pontes/Flickr)

     

    As primeiras palavras de Clara sobre a escola foram o nome de suas professoras: “Tati”, “Ju”, “Maria” e “Carol”. Nomes próprios recém-pronunciados pela pequena de 1 ano, e sempre com muita empolgação. Além de uma conquista de comunicação, uma bebezinha semibanguela falando “Tatiiiiiii” com um sorriso no rosto é um reconhecimento às pessoas que se dedicam a ela cinco dias por semana, durante toda a tarde e parte da manhã.

    São professoras como essas que estão nas ruas nesta quarta-feira contra os cortes na educação. Para pais e mães, há alguma dor de cabeça com a decisão: é preciso rever agendas e abrir espaço para cuidar dos pequenos com as escolas fechadas. Mas sublinhar o transtorno é uma chave de leitura estreita: põe a lógica do cliente, o “tô pagando” (impostos ou mensalidade) na frente de pessoas em geral admiradas por nossos filhos, e que são, a um só tempo, profissionais, trabalhadores – e também mães e pais.

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    Poucos setores foram tão afetados pelas mudanças de ventos políticos e econômicos dos últimos tempos quanto a educação. Com cortes implementados desde o segundo mandato de Dilma Rousseff, o setor – que na realidade precisaria de mais recursos para dar o salto de qualidade que o país precisa – vem operando no limite. A tesourada de Weintraub/Bolsonaro vem como uma espécie de golpe de misericórdia: com o contingenciamento, muitas instituições correm o risco de não chegar ao fim do ano.

    Acrescente ao caldeirão a demonização da docência, levada a cabo por movimentos – e por um governo – que enxergam o professor como doutrinador, e a reforma trabalhista, que ameaça tirar direitos via renegociação das convenções de trabalho de uma categoria historicamente desprestigiada (professores ganham até 39% a menos que profissionais de igual escolaridade). Pronto: eis um grupo pressionado – como tantos outros. Mas, como poucos outros, um grupo com razoável poder de mobilização, com sindicatos numerosos e organizados.

    A indignação docente vem crescendo. À tradicional ação de redes públicas vem se somando a adesão de instituições particulares. Cobrindo a greve geral de 2017, entrevistei alguns professores de escolas particulares de elite, que organizavam movimentos de parada quase clandestinamente via WhatsApp. Quando os perguntei se não temiam os riscos, a resposta foi algo do tipo: “Não nos importa. A situação chegou num ponto que não dá mais”.

    Desde então, os professores se tornaram protagonistas em ao menos três momentos: a já citada greve geral de 2017, o movimento grevista que barrou modificações nas convenções de trabalho de 2018 e, agora, na primeira greve do governo Bolsonaro.

    Balbúrdia ou resistência? É possível utilizar essa ocasião para aterrissar essas discussões na concretude. E também para apresentar aos filhos esses dilemas. Volto ao exemplo da Clara: professores e professoras de braços cruzados não são estranhos. São pessoas por quem ela tem afeto.

    Por que não aproveitar esse momento para ouvir os argumentos de todos os lados, de professoras que decidiram parar, de diretores contrariados, de pais que se queixam da greve? Além dos protestos, há nas capitais rodas de conversa e assembleias escolares em que os prós e contras da paralisação são debatidos. Com um pouco de paciência e empatia, dá para transformar um dia de escolas fechadas, paradoxalmente, numa ótima oportunidade de educar.

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    Como é mágico (e difícil) fazer um bebê dormir nos seus braços http://emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br/2019/05/10/como-e-magico-e-dificil-fazer-um-bebe-dormir-nos-seus-bracos/ http://emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br/2019/05/10/como-e-magico-e-dificil-fazer-um-bebe-dormir-nos-seus-bracos/#respond Fri, 10 May 2019 07:00:15 +0000 http://emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br/?p=161

    (Crédito: Armin Hanisch/Freeimages)

    “Tudo que um recém-nascido mais quer ao chegar ao mundo”, escreve Laurence Pernoud, francesa autora de clássicos manuais de maternidade/paternidade, “são braços que o embalem”. Diz a autora que essa necessidade de conexão precede até mesmo a necessidade de alimento, um traço que o ser humano tem em comum com outros primatas.

    Concordo. Há poucas coisas mais comoventes na vida do que fazer uma criança dormir nos braços. Pai de duas, tive a chance de ninar Luiza até quando ela e meu corpo suportamos. Agora é a vez de Clara. Elas são tão diferentes, mas na hora do acalanto, a sensação é a mesma. O olhar atento e fixo vai pouco a pouco se transformando com piscadas mais e mais prolongadas. Vem então um grande suspiro, como se dissesse: estou bem, agora vou relaxar. E a expressão serena capaz de desaparecer com qualquer problema, de lembrar que apesar de tudo estamos bem, e que as coisas, de uma forma ou de outra, vão se resolver.

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    Nem sempre o cenário é assim idílico. O prazer de ninar tem muito a ver com o relógio. Se você está há mais de meia hora fracassando em fazer o sono chegar, a magia evapora. Também não há santo que se deleite em mandar um nana-neném às quatro da manhã. É igualmente complicado, ainda, retomar a operação incontáveis vezes, porque o pequeno ou pequena começa a chorar no picolésimo de segundo seguinte a ser deixado no berço. A impressão é de estar lidando com uma explosivo prestes a detonar — fica aí minha sugestão de política pública, um treinamento simples e barato para nossos esquadrões antibomba.

    Embalar uma criança é uma das maravilhas da vida. Soube disso desde o primeiro dia com Luiza e fiquei chateado quando tivemos de recorrer a uma “encantadora do sono” para a Clara. O planejamento — bem feito, por sinal — incluía uma dose de estímulo-resposta com aquelas táticas de deixar a criança chorando por um tempinho sem pegá-la no colo. A especialista nos contou que muitas mães/pais desistiam justamente por não conseguirem abandonar o hábito de ninar os filhos. Para nossa sorte, Clara entendeu rápido que conseguia dormir sozinha quando necessário. Pudemos, então, retomar o nosso ritual.

    A cada vez que consigo fazer minha filha dormir, não consigo acreditar. Mergulhando na pieguice, acho que estou testemunhando um milagre. Uma pessoa — duas, na verdade — confiando em mim a ponto de se desligarem do mundo. Como se sentem assim, seguras, a ponto de se entregarem? A gente veste o manto de adulto de referência, de pai/mãe responsável, mas no fundo somos uma tremenda confusão. Eu, pelo menos, sou. Se elas soubessem…

    Depois penso que é isso mesmo, que somos todos uma coisa assim meio mal-ajambrada e que, no fundo, as pequenas sabem, aceitam nossas imperfeições, medos e hesitações. Talvez estar ali seja suficiente e o segredo seja esse mesmo: presença, olho no olho, pele com pele, sem distrações nem pressa. Contemplando esse mistério que é ser, ao mesmo tempo, sujeito e objeto da atenção plena, tentando desvendar os pensamentos de alguém que ainda não consegue verbalizá-los inteiramente para então perceber que os pensamentos não importam, o que importa é aquele momento. Provavelmente o momento de maior conexão que jamais teremos com outra pessoa.

    E tudo passa tão rápido! Luiza já tem 4 e sabe dormir sozinha. Tenho, com sorte, mais alguns bons meses de Clara em meus braços. É como se diz: que seja eterno enquanto dure (confirmando que estou piegas hoje). E que deixe boas lembranças. Recorrendo à psicanálise, Laurance Pernoud explica lindamente que dormir nos braços é o ponto inicial do amor. É graças a esse apego que a criança, confiante por ser amada, um dia conseguirá se desapegar.

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    Um conselho ao ministro da educação: volte para a escola http://emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br/2019/05/07/um-conselho-ao-ministro-da-educacao-volte-para-a-escola/ http://emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br/2019/05/07/um-conselho-ao-ministro-da-educacao-volte-para-a-escola/#respond Tue, 07 May 2019 07:00:39 +0000 http://emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br/?p=509

    (Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

    “Grandezas e medidas” é uma área básica da Matemática. Trata-se de um campo essencial para entender noções de maior, menor e igual. Na escolarização, aparece já na Educação Infantil. Em seguida, a área recebe uma unidade temática específica na Base Nacional Comum Curricular, contribuindo na ampliação da ideia de número.

    No 2º ano, por exemplo, a BNCC diz que as crianças precisam estar aptas a comparar e ordenar números naturais. No 6º ano, devem fazer estimativas de quantidades e aproximar números para múltiplos da potência de 10 mais próxima. De modo que se espera que, ao concluir o Ensino Fundamental, todos sejam capazes de distinguir, com certa tranquilidade, a diferença entre 500 mil e 500 milhões.

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    Pois essa área do conhecimento ganhou inesperado protagonismo numa fala do atual ministro da Educação Abraham Weintraub. Durante uma entrevista coletiva, o repórter Paulo Saldaña, da Folha de S. Paulo, perguntou ao ministro como era possível que o uma prova do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), que será aplicada a cerca de 7 milhões de estudantes, poderia custar modestos R$ 500 mil.

    A resposta ficou registrada no vídeo abaixo. Weintraub não apenas defende entusiasticamente o número como parabeniza Elmer Vicenzi, o novo presidente do Inep, Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, responsável pela avaliação. “O Elmer veio para cá para fazer mágica. E já chegou jogando e marcando um gol.”

    Para ficar na metáfora de Weintraub, o VAR anulou o tento do presidente do Inep. Erros acontecem. É preocupante, porém, que uma quantia tão inverossímil para a realização de um exame nacional, com operações complexas da concepção das questões à tabulação de resultados, sequer chame a atenção do titular da pasta da Educação.

    Weintraub faria bem a si próprio e ao país se voltasse à escola. E nem é por conta da confusão entre 500 mil e 500 milhões. É que sua visão sobre os problemas da educação é equivocada – caminha de mãos dadas, aliás, com a visão equivocada do governo Bolsonaro. Para o ministro, os males da educação são alunos e professores – o que novamente é coerente com sua trajetória de desavenças com colegas e estudantes na Unifesp, onde dá aulas.

    São duas as linhas básicas de raciocínio: 1- docentes, como se sabe, são doutrinadores comunistas, que precisam ser controlados via filmagem de aulas; 2- alunos, por sua vez, são maconheiros, preguiçosos e depravados, que andam nas universidades exibindo seus sexos enquanto torram o dinheiro de impostos do povo trabalhador. É a isso que Wientraub alude quando fala da “balbúrdia” em instituições públicas, contrariando fatos e usando como exemplo três instituições bem posicionadas em rankings de avaliação.

    O ministro está, outra vez, em companhia questionável: é assim que é levado a pensar quem frequenta os grupos públicos bolsonaristas de WhatsApp, onde circulam imagens e textos como estes:

    (Crédito: reprodução Whatsapp)

     

    A tática de desinformação é a mesma usada no episódio do golden shower de Bolsonaro e na estereotipação do movimento #elenão, ainda nas eleições. Recursos falaciosos como descontextualização (ausência de explicações sobre a foto), exemplar saliente (uso de fato raro como se fosse corriqueiro) e fake news (no caso, houve corte também na Educação Básica) constroem um retrato falso da educação brasileira, mas eficaz para mobilizar o pânico moral dos militantes mais aguerridos.

    O grande drama é que os problemas da educação, que são conhecidos e bastante reais, permanecem inatacados. E no topo das dificuldades está a falta de recursos. Mesmo no ensino superior os patamares estão abaixo da média da OCDE, o clube das nações mais ricas do planeta. E na Educação Básica as redes mais pobres precisam se virar com o equivalente a R$ 250 mensais por aluno. Você conhece alguma escola particular de boa qualidade que cobre esse valor?

    Os cortes anunciados provocaram indignação e revolta num setor operando no limite desde a imposição do teto de gastos pelo governo Temer. Muitas instituições sinalizam a impossibilidade de funcionamento no 2º semestre. Se voltasse à escola e à universidade, Weintraub teria muita dificuldade de encontrar gente pelada vagando a esmo pelo campus. Mas veria, com bastante frequência, laboratórios sem instrumentos, banheiros sem papel, elevadores parados, lixo acumulado, hospitais universitários destruídos, aulas sem professores ou com docentes voluntários, alunos sem bolsa, programas interrompidos.

    Os cortes anunciados só vão agravar os problemas de verdade. Educação de qualidade custa caro e isso é algo difícil pôr na cabeça mesmo de gente muito séria. Tenho poucas esperanças de que um ministro que acha que um exame nacional custa 7 centavos por aluno vá entender isso.

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    Não é só no domingo: soneca da tarde é resistência contra o mundo injusto http://emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br/2019/04/25/soneca-da-tarde-e-resistencia-contra-o-mundo-injusto/ http://emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br/2019/04/25/soneca-da-tarde-e-resistencia-contra-o-mundo-injusto/#respond Thu, 25 Apr 2019 21:30:03 +0000 http://emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br/?p=501

    Um misto de “que fofo” com “que inveja” (Foto: iStock)

    São duas e meia da tarde de uma terça-feira. Estamos sozinhos em casa. Uma conferida na lista de tarefas e, não, nada de importante. Próximo compromisso é buscar as meninas na escola às 17h. Olho para ela que, charmosa, faz que não vê. Mas é um jogo que se joga a dois, ambos sabemos onde isso vai chegar. Estou deitado, preparo o terreno. Uma afofada aqui, uma alisada adiante, pronto: caio na cama, hora de dormir.

    Uma demissão tem suas vantagens. Depois de 15 anos trabalhando das nove às cinco, seis, sete, oito, fui, hum, liberado para novos desafios. Eis que me vejo como professor horista e freelancer, com menos dinheiro e com uma agenda mais errática – e certos bônus não previstos. Algumas horas livres em algumas tardes são o maior benefício.

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    Eu poderia caçar mais trabalho, escrever mais um texto para o blog, ler um livro ou lavar a louça. Coisa para fazer não falta e, na real, estou sempre eternamente atrasado. Por outro lado: que se exploda. Tenho usado esse tempo para dormir. Culpa zero e, na verdade, acho pouco. Raramente mais que meia hora por dia. Não vou estabelecer meta, mas o objetivo é atingi-la e dobrá-la. Num plano francamente delirante, quem sabe até por o pijama e me ninar dizendo bons sonhos.

    Dormir à tarde é um privilégio. Costuma estar ao alcance de crianças pequenas, idosos aposentados, um ou outro desocupado e, mais recentemente, de gente que decidiu desacelerar. A soneca vespertina tem vantagens comprovadas. O livro francês Apprendre a Faire la Sieste (“Aprender a Fazer a Sesta”) enumera algumas.

    Apoiado em quatro décadas de pesquisa sobre o sono, o autor Eric Mullens defende que a sesta, mais que um aspecto cultural de determinados povos, é uma atividade natural. A cronobiologia indica o intervalo entre uma e cinco da tarde como o segundo período de maior sonolência durante as 24 horas. Perde, evidentemente, para a noite. O sono vespertino, portanto, é uma necessidade ao longo de toda a vida. Nós é que o abandonamos cedo demais.

    Não estamos falando de um tempo demasiado grande. Segundo Mullens, um pouco mais de 20 minutos bastam para que a soneca cumpra sua principal função: ajudar a recuperar a energia para o resto da jornada. A privação da sesta, por outro lado, pode ser um risco. Experimente cortar o repouso vespertino de um filho pequeno e transforme sua vida em cada um dos círculos do inferno.

    O campo da saúde é o mais óbvio, mas há um outro registro em que a soneca nos reabilita gloriosamente. Num certo sentido, ela é um grito de rebeldia contra o mundo. Em Sociedade do Cansaço, o filósofo Byung Chun-Han esmiuça a exaustão contemporânea. Chega à conclusão de que ela é um produto da sociedade do desempenho, em que as palavras de ordem são metas, eficiência, produtividade. Em suma, o universo em que vivemos hoje.

    O convite que o mundo nos faz é para estarmos constantemente em movimento. Se possível, produzindo, e se possível ganhando dinheiro para isso. Ocorre que não se trata de um destino. O repouso está, ou deveria estar, ao alcance mesmo de quem literalmente está debaixo de um bombardeio. Conta-se que o primeiro-ministro britânico Wiston Churchill não dispensava a siesta nem mesmo durante a guerra: duas horas de duração, sempre às cinco da tarde. Isso não o impediu de liderar os aliados contra Hitler, o que deve ter soado ao ditador nazista como suprema humilhação: derrotado por um rotundo senhor que nunca abriu mão do ronquinho à tarde.

    Han nos diz que o trabalho é uma espécie de degradação da vida e que, no fundo, o homem não nasceu para trabalhar. Há um tanto de elitismo nessa fala – o trabalho, muitas vezes em jornadas e condições abusivas, não é uma escolha para a grande maioria da população. Mas podemos usar a provocação para olhar para a minoria que pode escolher ir mais devagar e trabalhar menos. Muitos seguem acelerados. Por que não param um pouco?

    A soneca, nesse sentido, é um majestoso dedo do meio para a sociedade da produção incessante. É como se disséssemos: há uma pequena parcela da minha vida que nem a família, o cliente ou chefe, a internet ou o WhatsApp conseguirão roubar de mim. Sensação maravilhosa é ver o mundo se consumir em catástrofe do lado de fora do quarto enquanto usufruímos do tesouro da revolta. Pela próxima hora, vou fechar as cortinas e dormir.

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    “Deixa a pretinha pra lá”: racismo em escola de RJ mostra nosso preconceito http://emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br/2019/04/21/como-um-caso-de-racismo-na-escola-aponta-o-preconceito-que-existe-em-nos/ http://emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br/2019/04/21/como-um-caso-de-racismo-na-escola-aponta-o-preconceito-que-existe-em-nos/#respond Sun, 21 Apr 2019 07:00:25 +0000 http://emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br/?p=496

    (Crédito: Rodrigo Ratier)

    Abro espaço nesta semana para um texto do amigo Mario Luis Grangeia. Jornalista, escritor e doutor em sociologia pela UFRJ, Mario testemunhou um caso de racismo na escola que sua filha frequenta. Recuperando ocorrências semelhantes, pesquisas sobre o tema e refletindo sobre sua própria experiência como aluno, ele nos propõe um olhar no espelho– necessário e, por vezes, doloroso – como caminho inescapável para combater a discriminação racial.

    * * *

    Uma família carioca tornou pública, dias atrás, uma dor antes só dela. A filha de 7 anos sofria racismo de colegas de turma. Os pais, sem sucesso nas tentativas de aplacar de vez agressões verbais e físicas, tiraram as três filhas da escola. O caso me tocou bastante por ter deixado de rever as três indo e vindo – minha filha é aluna na educação infantil na mesma instituição.

    A escola divulgou nota e carta dizendo que tem atacado o racismo e reforçará o combate. Fiquemos de olho para discursos e práticas não descasarem. Nesse caso recente, os pais se alarmaram com razão quando testemunharam a filha ouvir uma colega dizendo “deixa essa pretinha pra lá”. Até quando afirmações assim vão circular entre adultos e crianças?

    É desconcertante ver essa violência simbólica em espaços onde crianças devem se sentir seguras. Que ao menos essa reação do casal de pais faça mais brasileiros pensarmos no tema. É importante reabrir esse debate. É o que tento fazer neste texto.

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    Tentei lembrar se presenciei ofensas racistas na escola… Em dez anos no Colégio de São Bento, vi muitos meninos – éramos só homens – se chamando de coisas menos toleradas hoje (intoleráveis já naqueles anos 1980/90). Colegas negros eram uma minoria que ouviu gracinhas sem graça que se diluíam em meio a tantas troças (talvez mais numerosas pela falta de meninas) e que, na nossa idade, eram menos identificáveis como discriminatórias.

    Como em tantas escolas, havia provocações (e preconceito) pelo bairro de onde se vinha, o sobrepeso, o aparelho dentário e, entre diferenças como essas, a cor da pele. Crianças podem ser cruéis e, num dia, alunos mais velhos levaram franzinos como eu até perto do campo de futebol, nos seguraram e ameaçaram nos fazer engolir lesmas, aproximando-as de nossos rostos. Um de nós era negro, mas isso não importou ali – até onde me recordo.

    Tenho certa lembrança de um inspetor negro, que chamávamos pelo nome no diminutivo, não julgar grave (ou pelo menos não reagir) ao ser chamado de “negão” por alguém do corpo discente ou docente – professores, na maioria homens, não raro entravam em zombarias. Eram outros tempos… Isso pode contextualizar, sem nunca desculpar, atitudes desse tipo.

    O humorista Hélio de la Peña, que estudou lá duas décadas antes de mim, recontaria com orgulho a primeira conversa de sua mãe com o reitor do colégio. Após se informar sobre a chance de Hélio ganhar bolsa, ela quis alertar o monge beneditino sobre um traço do filho.

    Ah, tem mais uma coisinha. É que o meu filho, ele é… ele é…

    Ele é?

    Ele é negro.

    Dom Lourenço fitou minha mãe de cima a baixo e disparou:

    Bom, isso eu já imaginava, minha senhora…

    Contei tantas vezes essa passagem que já nem sei se realmente aconteceu ou se inventei.

    Ainda na crônica “O Colégio de São Bento e eu”, que abre o livro “Pula, pula, macacada, que amanhã não tem mais nada”, de estórias contadas por ex-alunos do CSB, o autor não dourou a pílula: “Fui transportado para uma realidade bem distante da minha infância. Não foi fácil ser negro, pobre e suburbano no meio da garotada da Zona Sul”. Como se vê, o desafio segue tristemente atual.

    Por onde andará seu racismo?

    Em meados da década passada, TVs e rádios veicularam uma campanha boa de lembrar: “Onde você guarda o seu racismo?”, nascida de um projeto coordenado pelo Ibase e com 30 organizações da sociedade civil. Engajado na iniciativa, o então pesquisador do Ibase Mauricio Santoro, amigo hoje professor da Uerj, notou que essa campanha pressupunha que todas as pessoas seriam um pouco racistas. “Podemos não ter atitudes que mostrem isso abertamente, mas, por alguma razão, mantemos a bizarra crença de que pessoas são melhores ou piores do que outras devido à cor da pele”, frisou em artigo da época.

    Em lugares públicos deste Rio de Janeiro outrora destino de africanos escravizados, mais de 200 pessoas foram indagadas sobre onde guardariam seu racismo. Depoimentos eram usados para criar os vídeos, cartazes, folders e outdoors. Surpresos com a pergunta, os entrevistados emendavam na forte negativa quanto a serem racistas e, após interpelados, abandonavam o politicamente correto em cenários como “o que você faria se estivesse numa rua escura e aparecesse um negro?” ou “e se seu filho namorasse uma negra?”. As respostas à questão mor, ainda segundo o texto de Mauricio Santoro, eram bem sortidas:

    Nas piadas.

    Não sou racista, mas a sociedade me obriga a ser.

    No passado, isso é algo da escravidão, não existe mais.

    Como é que vou ser racista se minha noiva é morena?

    No medo.

    Eles são muito piores. Quando conseguem um bom emprego, pisam na gente.

    No inconsciente.

    Não sou racista. Talvez eu simplesmente não goste de gente que faz coisas erradas.

    Entre os vídeos criados para essa campanha, eu destacaria três desabafos bastante crus:

    A gente levou nosso afilhado de três anos para uma festa e uma criança da mesma idade disse pra ele “Minha mãe detesta gente preta e eu também”. [Depoimento de um casal pardo]

    Minha mulher e eu saímos de férias, chegamos no hotel e eles falaram “não pode entrar aqui. Aqui é um hotel de família”. [Depoimento de um estrangeiro casado com uma negra]

    Eu estava no ônibus com meu ex-marido que é branco. Teve uma blitz. Eu, a única mulher negra, fui a única a ser revistada. [Depoimento de uma senhora]

    O artigo de Santoro saiu no fim de 2004 e merece a leitura de quem quer saber mais da campanha, do racismo no país e de políticas contra ele até então.

     Confronto, autogerenciamento ou silêncio?

    Estudos sobre diversas questões do racismo no país têm proliferado nas últimas décadas. Para concluir, quero recuperar achados de duas sociólogas com quem muito aprendi na UFRJ. No artigo “Interpretações e reações à estigmatização étnico-racial: narrativas dos Negros Brasileiros em perspectiva comparada”, as professoras Graziella Moraes Silva (hoje no IHEID, em Genebra) e Elisa P. Reis (minha orientadora no mestrado e doutorado) analisam narrativas e respostas de negros brasileiros à estigmatização e à discriminação.

    Dos 160 negros brasileiros ouvidos, só 18 não narraram incidentes desse tipo. Tal como os depoimentos colhidos para a campanha “Onde você guarda o seu racismo?”, alguns citados nesse artigo geram um misto de perplexidade e indignação.

    “Eu fui a Brasília fazer uma entrevista pro Jornal, e fui convidada a uma festa. Eu fui superarrumada (…) quando eu voltei pro hotel, devia ser uma hora da manhã, eu estava com um vestido vermelho, penteada, maquiada, e falei pra recepção do hotel ‘Quarto 402’. E o sujeito, em vez de me dar a chave, ligou pro quarto e falou… ele ficou assim, me deu um meio sorriso e falou assim ‘Não está atendendo’. Eu falei: ‘Não está atendendo porque é o meu quarto, eu te pedi a chave’. Imediatamente a feição dele mudou, ele achou que eu era uma prostituta e tinha ido atender um cliente porque, assim, uma negra arrumada, em Brasília, uma hora da manhã, não passa pelo código…”

    [Mulher, jornalista, 39 anos, identifica-se como Negra e Parda de acordo com categorias do IBGE]

    “Uma vez que eu fui ver um apartamento na Barão de Mesquita e quando eu cheguei quem me recebeu foi um porteiro, nordestino. [Os nordestinos] são extremamente discriminados, principalmente no Rio de Janeiro. Eu falei: ‘Eu queria ver o apartamento tal’. ‘O apartamento já foi alugado’. Mas, ele não me olhou nos olhos e eu vi que ele estava mentindo, eu não gosto de gente que não te olha nos olhos. Aí, eu cheguei em casa e mandei o meu pai [que é branco] se arrumar, ele se arrumou, penteou o cabelo e desceu e foi lá e disse que queria ver o apartamento, então ele foi andando com o meu pai, e eu fui atrás do meu pai e ele não me viu, e falou: ‘Pro senhor ver, veio ver uma ‘neguinha’ ver o apartamento, será que essas pessoas não se enxergam, não?’. Aí, eu cheguei e falei: ‘Oi. Pai’. Aí, eu arrasei com ele: ‘Eu poderia te botar na cadeia, mas, não vou botar porque eu acho que você é um infeliz, você também sofre preconceito…’”.

    [Mulher, assistente social, 59 anos, identifica-se como Negra e Preta segundo categorias do IBGE]

    O estudo feito na UFRJ a partir de trabalho em cooperação com americanos e israelenses  inovou ao lançar luz às reações de negros brasileiros à estigmatização e ao racismo. Para quem não sabe como as escolas podem aperfeiçoar seu combate ao racismo, esse artigo se mostra como uma dica de leitura útil para deixar de lado muitos achismos e blá-blá-blá.

    Três tipos principais de resposta à estigmatização e ao racismo foram realçados no Brasil: confronto, autogerenciamento e não resposta. Tais estratégias foram citadas praticamente com a mesma frequência por brasileiros (pouco mais da metade citou cada uma). Nos EUA, o confronto foi a estratégia mais citada como a tomada por eles, bem como a ideal.

    Os brasileiros argumentaram que o racismo deveria ser discutido, mas de forma educada e pouco agressiva, ao contrário dos entrevistados nos EUA e Israel (palestinos, etíopes-israelenses e judeus de origem árabe). Como a maioria aqui crê que o racismo é fruto da ignorância, se deu ênfase à educação (“educar os racistas”) e às respostas não violentas.

    Quem prefere se autogerenciar parece ter refletido mais sobre os custos e benefícios das estratégias disponíveis. Reações pelo humor – um tipo de autogerenciamento – mostram-se mais frequentes no Brasil do que nos EUA e em Israel. A não resposta, por sua vez, foi muitas vezes atribuída a uma falta de reação ou sensação de passivos, impotentes e sem escolha. Em outros casos, não se respondeu por considerar os incidentes insignificantes ou sujeitos à capacidade de perdoar vinculada a uma avaliação de superioridade moral.

    Como filho de professores, cresci ouvindo a ideia de que, em sala de aula, cada professor também é aluno e vice-versa. Como professor num pré-vestibular comunitário, vi de perto tal inversão de papéis frente a turmas de idades, raças, origens e destinos diversificados. Agora como pai, espero que as escolas multipliquem lições antirracistas que tornem velha a múltipla escolha “confronto; autogerenciamento; silêncio” que o racismo impõe aos agredidos.

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    Confiar em estranhos: a lição de felicidade que o Brasil esqueceu http://emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br/2019/04/10/confiar-em-estranhos-a-licao-de-felicidade-que-o-brasil-esqueceu/ http://emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br/2019/04/10/confiar-em-estranhos-a-licao-de-felicidade-que-o-brasil-esqueceu/#respond Wed, 10 Apr 2019 20:39:25 +0000 http://emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br/?p=489

    (Crédito: stoll/Freeimages)

    Fiz um intercâmbio na Noruega por um tempo muito curto – um mês e meio. O suficiente, porém, para algumas experiências intensas. Já contei algumas aqui e conto outra. Era 2013 e eu achava que tinha algum tino comercial. Entrei em contato com os responsáveis por um site de classificados online, o maior do país – 3,5 milhões de usuários por ano – para entender qual era o negócio.

    Uma das minhas primeiras perguntas foi sobre segurança. Como garantir que os anúncios não eram de fachada? A pessoa do outro lado do computador não entendeu muito bem minha dúvida. Insisti, dizendo que há gente mal intencionada, anunciando coisas que não existem, vendendo contrabando, aplicando golpes em geral. Aí a moça – era uma mulher – captou a preocupação, e respondeu: “Não temos nenhuma medida especial. Nós confiamos muito nas pessoas na Noruega”.

    Na semana passada, o país subiu no pódio do World Happiness Report, o ranking mundial de felicidade. Ficou com a medalha de bronze, sendo que os dois primeiros, Finlândia e Dinamarca, e o quarto, a Islândia, são também países nórdicos. Brasil? 32º lugar.

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    Os altos índices de alegria não se devem ao clima. Esse gélido conjunto de nações experimenta invernos super rigorosos e com longos períodos do dia sem luz do sol. Definitivamente, não é o ambiente dos sonhos, mas também é um mito que eles ostentem altos índices de suicídio – nenhum dos países nórdicos está entre os trinta primeiros colocados dessa triste lista. A turma por lá é feliz, o que nos leva à pergunta: como é possível estar contente num lugar desses?

    Um dos principais fatores, segundo o World Happiness Report, é que os habitantes dessas nações têm um alto nível de confiança em estranhos. Saber que ninguém vai te passar a perna num classificado online, te assaltar na próxima esquina ou confiscar sua poupança da noite para o dia é essencial para a sensação de bem-estar. A alegria de viver está diretamente ligada à crença de que o próximo, seja ele quem for, não vai te fazer mal. Ao contrário: está ali para te ajudar.

    Há muitos anos tento conviver com a ansiedade e circunscrevê-la a patamares aceitáveis. Foi uma das razões que me levaram ao divã da analista, que certa vez sentenciou: “Você precisa confiar que o mundo vai cuidar de você”. Dizem que analista boa não dá conselho, mas aquela dava e foi bom para mim. Viver a vida na base da confiança, no fio do bigode, como dizem os mais antigos, provocou alguns dissabores, mas me ajudou a deixar para trás a necessidade de estar sempre alerta, esperando pelo pior. Para resumir, passei a viver com muito menos medo.

    A confiança em quem não se conhece não está no DNA do brasileiro. Em sua análise da brasilidade no livro “O que faz o brasil, Brasil?”, o antropólogo Roberto DaMatta fala da divisão clara entre dois espaços essenciais à vida social brasileira: o mundo da casa e o mundo na rua.

    Na casa está a família, “temos as ‘pessoas’, todos lá são ‘gente’: ‘nossa gente’”. Na rua, povoada por uma massa indiferenciada e desconhecida, moram os perigos. Nela não há amor nem consideração, nem respeito, nem amizade. “Que insegurança nos possui quando um pedaço de nosso sangue e de nossa casa vai ao encontro desse oceano de maldade e insegurança que é a rua brasileira”, anotou DaMatta. O estranho, na sociedade brasileira, é o inimigo.

    Dessa tese vamos colecionando arrepiantes comprovações cotidianas. O músico Evaldo Rosa dos Santos não pode contar com a confiança nos estranhos. Foi visto como inimigo pelo batalhão do exército que o fuzilou com 80 tiros, matando-o no carro em que ele estava com esposa e filho. Não é engano, é preconceito estrutural em ação. No Brasil, deixar a vida te levar é um risco que poucos podem assumir. Dependendo de sua cor e de sua classe social, o preço é alto demais.

    Saída apresentada pelos poderosos de turno: colocar um trabuco na cintura de cada brasileiro e de cada brasileira. Já que não podemos mesmo confiar em ninguém, que nos matemos todos. E que os mais rápidos no gatilho sobrevivam um pouco mais. É o caso de parafrasear o título do livro: se enxergamos cada compatriota como inimigo, ainda temos uma nação? O que faz do brasil, Brasil?

    Daí a importância do autocuidado e de cercar-se de afeto, mesmo que este não esteja na família. Com a polarização política desfazendo amizades e implodindo almoços de domingo, a casa já não é o espaço seguro e de prazer que foi um dia. Ainda, assim, rodear-se de apoio e confiança de que haverá alguém por nós quando precisarmos é a receita dos países mais felizes. Tomemos fôlego, porque não tem sido fácil construir essa rede de amor. O Brasil, afundando-se em individualismo, intolerância e violência, nos convida a fazer o inverso.

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