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Em Desconstrução

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O nazismo não é de esquerda. O próprio Hitler desmente Bolsonaro

Rodrigo Ratier

2003-04-20T19:09:55

03/04/2019 09h55

(Crédito: Wikimedia)

Comecemos com o resumo.

Na sexta-feira passada, 29 de março, o chanceler Ernesto Araújo afirmou que o nazismo era de esquerda. Na terça, 2 de abril, recebeu o endosso de seu chefe Jair Bolsonaro com um argumento lacrador de rede social: "Não há dúvida. Partido Socialista… Como é que é? Da Alemanha. Partido Nacional Socialista da Alemanha."

Foram rechaçados por Deus e o mundo: pelo museu do holocausto, pelo rabino da congregação israelita no Brasil, em ocasião anterior pela embaixada alemã e pelo grosso da comunidade acadêmica, que classifica o nazismo como exemplo emblemático da extrema-direita.

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Seriam, aliás, desmentidos pelo próprio Adolf Hitler, caso ele estivesse vivo.

Não é novidade que o ditador nazista repudiava qualquer associação com o marxismo. Um registro são as declarações ao jornal britânico The Guardian, em 1923. Nove anos depois, reapareceram na revista Liberty, que chegou a ser uma das maiores semanais dos Estados Unidos. Na época, o Partido Nazista, ou Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, era o mais votado do país. A capa de 9 de julho de 1932 traz no topo a chamada para a entrevista ("quando eu tomar conta da Alemanha"):

(Crédito: reprodução)

O texto já circulou amplamente pelo Brasil. Uma versão da conversa em português está disponível desde 2004 no livro A Arte da Entrevista (ed. Boitempo), antologia organizada pelo jornalista Fábio Altman. Ainda assim, por ignorância ou má fé ou ambos, de tempos em tempos a falsa controvérsia reaparece. Agora, virou discurso oficial do governo.

Não custa relembrar a história para quem não a conhece. Logo no início da entrevista, o jornalista germano-americano George Sylvester Viereck, que viria a se tornar um entusiasta do nazismo, pergunta a Hitler:

Por que o senhor se diz um nacional-socialista, já que o programa de seu partido é a própria antítese do que geralmente se acredita ser o socialismo?

Hitler O socialismo é a ciência de lidar com o bem-estar geral. O comunismo não é o socialismo. O marxismo não é o socialismo. Os marxistas roubaram o termo e confundiram seu significado. Vou tirar o socialismo dos socialistas.

O que estava em jogo, portanto, era a definição sobre o termo "socialismo". Hitler queria toma-lo dos comunistas-marxistas, tradicionalmente identificados como de esquerda. "O nacional-socialismo é uma forma de capturar a ideia de socialismo que mira no bem-estar geral", afirma o cientista político Vitor Marchetti, professor no curso de políticas públicas da Universidade Federal do ABC (UFABC). "É uma disputa simbólica que vem de décadas. Aparece, inclusive, no Partido Social Liberal, o PSL de Jair Bolsonaro, cujo nome tenta apontar tanto para a questão das liberdades individuais quanto com para a conexão com o bem-estar social".

Na mesma entrevista, Hitler afirma que "nenhum homem saudável é marxista". As críticas prosseguem:

Hitler O marxismo não tem direito de se disfarçar de socialismo. O socialismo, diferentemente do marxismo, não repudia a propriedade privada. Diferentemente do marxismo, ele não envolve a negação da personalidade e é patriótico. Poderíamos ter chamado nosso partido de Partido Liberal. Preferimos chamá-lo de Nacional-Socialista. Não somos internacionalistas. Nosso socialismo é nacional. Exigimos o atendimento das justas reivindicações das classes produtivas pelo Estado com base na solidariedade racial.

O trecho merece análise em pelo menos dois pontos. Por um lado, o nazismo se apresenta, por cálculo político, como uma "terceira via" entre o capitalismo e o socialismo – seria difícil defender abertamente a economia de mercado no cenário de caos econômico e social que assolava a Alemanha no início dos anos 1930. Se o repúdio ao socialismo-marxista é evidente na fala do ditador alemão, as críticas ao capitalismo são menos pronunciadas – a ponto de Hitler dizer que seu partido poderia se chamar Partido Liberal.

"Apesar de se dizer antiliberal, em nenhum momento o nazismo se posta frontalmente contra o capitalismo. Ao contrário: existe literatura bastante larga sobre o desenvolvimento de empresas capitalistas sob o regime nazista", afirma Marchetti.

O fato do nazismo se colocar explicitamente contra o marxismo e não contra o capitalismo o posiciona, de partida, no campo da direita. A migração para o extremo vem com o caráter nacionalista-racial do regime. A xenofobia também se manifesta na conversa com Viereck:

Hitler Nos meus planos para o Estado alemão, não haverá lugar para os estrangeiros, os perdulários, os usurários, os especuladores ou qualquer um que não seja capaz de fazer um trabalho produtivo.

O projeto hitlerista teria uma forte ligação com o pressuposto de que uma grupo "superior" pode dominar os demais e expurgar os "inferiores". A defesa teórica e as ações práticas de uma hierarquia racial coloca o nazismo, do ponto de vista político, como representante da extrema-direita. Novamente, a oposição apresentada é com o marxismo:

Hitler Nossos trabalhadores têm duas almas: uma é alemã e a outra é marxista. Temos que acordar a alma alemã. Temos que extirpar o tumor do marxismo. O marxismo e o germanismo são antíteses.

O que se pode apontar como semelhança é que ambos os regimes – o nazista alemão e socialista-marxista, em sua vertente soviética sob Stálin – desembocaram em totalitarismos sangrentos, ocasionando milhões de mortes. Mesmo com naturezas e sentidos distintos, extrema-direita e extrema-esquerda se igualaram tristemente na eliminação de semelhantes.

A entrevista original em inglês está no site do Guardian.

A íntegra da versão em português pode ser encontrada no Ópera Mundi, parceiro do UOL.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Rodrigo Ratier é jornalista, professor universitário, pai de duas, curioso pela vida, entusiasta do contraditório

Sobre o blog

Olhares e provocações sobre a vida cotidiana: família, trabalho, amizade, educação, cultura – e o que vier pela frente