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Em Desconstrução

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Ser pai ficou mais difícil -- e precisa ficar ainda mais

Rodrigo Ratier

10/08/2019 04h00

(Crédito: Jason Nelson/Freeimages)

Tenho duas filhas, Luiza de 4 anos, e Clara, de 1. Fui pai duas vezes e digo isso não apenas no sentido aritmético. Só três anos separam uma da outra — mas foram três anos e tanto! A paternidade evoluiu e não foi sem luta: respondeu a demandas sociais como os movimentos antiassédio, a quarta onda feminista e foi, também, impactada pela crise econômica. O resultado foram duas experiências concretas muito distintas sobre o que significa ser pai.

Em 2015, quando Luiza nasceu, era aceitável — um último suspiro de aceitação, na verdade — que um pai "presente" dissesse que "ajuda" em casa. O verbo traz implícito muita coisa complicada, a começar pela ideia de que criar um filho é tarefa feminina e que qualquer mãozinha que o macho der, se continuar cumprindo suas tarefas de provedor econômico, já está de ótimo tamanho. 

Vivenciei essa realidade com um emprego estável de 40 horas e uma licença-paternidade padrão de 5 dias. Me fazia presente lavando uma louça aqui e ali, intensificando (um pouco, não muito) as idas ao supermercado e farmácia e, muito ocasionalmente, acordando à noite para acudir a pequena. Mas não era bom abusar: afinal de contas, eu precisava estar inteiraço para trabalhar na manhã seguinte.

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O nascimento de Clara me colheu numa outra situação. No início de 2018, ainda estava empregado com carteira assinada, mas já contemplado com uma licença de 30 dias por liberalidade da empresa. Baita privilégio a mostrar que, ao menos dentro de uma bolha civilizada hipster de classe média alta, as coisas mudaram para melhor. E o que rolou com esse "presente" foi um choque de realidade: o afastamento por 4, 5, 6 meses das mulheres não é à toa. Fui apresentado a uma rotina de consultas médicas necessárias aos primeiros dias de vida, testes do pezinho, angústia com um resultado inconclusivo e, em seguida, o alívio por estar tudo bem. Coisas que aconteceram também no primeiro nascimento, mas que não estavam no meu radar simplesmente porque eu não estava ali quando esses perrengues rolaram.

Mudaram os ventos econômicos e, com eles, veio uma inversão de papéis: minha companheira passou a trabalhar 40 horas e eu, menos. Era minha vez de me dedicar mais ao cuidado das pequenas, o que revelou uma série de invisibilidades: lanche para a escola (as frutas não brotam na mochila), limpeza de pratinhos e mamadeiras depois da aula (sim, fica uma sujeirinha), água e sabão em blusas, calcinhas e macacões premiados com tinta, lama e cocô (inexplicavelmente, essas coisas não se autolavam).  

Mais suor, mas sem igualdade

Passei a suar mais. Mas a nota de rodapé, que talvez devesse ter força de título, é que minha esposa, mesmo trabalhando 40 horas, seguiu lidando com tarefas com as quais eu não me ocupava na sua posição. Isso tem um nome: privilégio, e não reconhecer que mesmo com uma maior igualdade em nossa relação ela ainda acaba levando — é duro e impreciso dizer isso em relação a filhos, mas vamos lá — "a pior" é fechar os olhos para o óbvio.

Pois bem: em 2019, somos muitos os pais mais inteiros com os filhos e, ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que essa integralidade ainda é de uma posição beneficiada. Em um certo sentido, a vida de pai ficou um pouco mais difícil. Não conte às mulheres (na verdade, pode contar), mas poderia e deveria ficar mais. É verdade que a definição de "homão da porra" foi atualizada de "macho que ajuda com qualquer coisa" para "companheiro que ajuda um pouco mais e sabe que ainda é pouco". Mas a igualdade efetiva exige que tudo isso reverbere em mais ações práticas. 

É um pouco vergonhoso dizer que, para mim, essa ficha só caiu concretamente nestas férias, quase cinco anos depois do nascimento da Luiza. Vieram as férias de julho e, como a mãe estava trabalhando, viajamos, eu e as meninas, para um hotel. Não estávamos sozinhos (hello, privilégio!): tínhamos o luxuoso backup de meus sogros no quarto ao lado. Mesmo assim, assumi um protagonismo inédito, tendo que me preocupar com outras coisas ocultas: quantidade de fraldas, roupas que combinam, tipos diferentes de rabo de cavalo (tranças estão muito além de minhas capacidades psicomotoras), provisão de frutas, reaproveitamento de bodies, definição de rotinas para hora de dormir e de acordar, mediação incessante de conflitos entre irmãs… 

Uma extensa lista superfamiliar para a minha esposa, encarregada não de lidar — com isso eu "ajudava" –, mas de planejar toda essa complexa infraestrutura cotidiana para uma simples viagem com crianças. É a tal "carga mental" que as mulheres se queixam, com absoluta razão, de suportar sozinhas a maior parte do tempo.

Os tempos seguem mudando! Neste ano, me chamou a atenção a quantidade maior de pais do que mães participando da adaptação de seus filhos na escola (ok, vale dourado da Zona Oeste de SP, mas ainda assim). Como será meu relato de dia dos pais daqui a três anos? O mundo gira, apesar dos idiotas que querem fazê-lo rodar para trás.

*Atualizado em 11/08, às 9h50.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Rodrigo Ratier é jornalista, professor universitário, pai de duas, curioso pela vida, entusiasta do contraditório

Sobre o blog

Olhares e provocações sobre a vida cotidiana: família, trabalho, amizade, educação, cultura – e o que vier pela frente