menu
Topo
Em Desconstrução

Em Desconstrução

Fomos sequestrados pelas redes sociais. E como vamos pagar esse resgate?

Rodrigo Ratier

13/11/2018 11h32

(Crédito: Tamlyn Rhodes/Freeimages)

O verbo certo, qual será mesmo? Sim: sequestrar. Procuro uma palavra que exprima o que as redes sociais têm feito conosco e encontro, casualmente, na 33ª Bienal de São Paulo, a definição no texto do curador-geral Gabriel Pérez-Barreiro: "Temos visto como as redes sociais vêm sequestrando cada vez mais nossa atenção, com consequências devastadoras para nossa vida política e social".

Não é o caso de lembrar do reverso da moeda e exaltar tudo de bom que a conectividade nos trouxe. É verdade e já sabemos que ter uma extensão da vida em modo online é uma equação com prejuízos e benefícios. O que o atual e inegável mal-estar social nos mostra é uma resultante mais negativa que positiva. Como lembra Pérez-Barreiro, a intolerância e polarização devem muito à nossa hiperconexão. Na verdade, à forma como ela tem sido estruturada, via algoritmos que reforçam as bolhas ideológicas e os chamados vieses de confirmação. Tudo isso já foi dito: não quero soar como um disco riscado a lamentar o resultado eleitoral. Retomo, então, sua feliz e triste expressão, pois é disso que se trata: estamos diante de um sequestro de atenção.

Examino os dois termos. A atenção é nosso bem mais precioso. É nossa única ligação com o momento presente, a diferença entre se entregar verdadeiramente à experiência vivida e às pessoas que dela participam, ou estar apenas de corpo presente, numa atuação canastrona e distante. Já o sequestro é um crime hediondo que consiste na subtração violenta de algo que nos é caro mediante chantagem. Pagamos o resgate exigido pelas redes sociais com nossa vida, a conta-gotas e voluntariamente.

Veja também

Vou ao restaurante e vejo mesas silenciosas. Cada um está mergulhado em seu próprio smartphone, rolando com o polegar timelines infinitas e desimportantes enquanto aguardam um prato – para ser fotografado, evidentemente. Por um momento me sinto moralmente superior: tenho consciência desse caráter viciante e deixei meu celular em casa. Logo me vem à mente a cena patética de minha filha diante de mim, brinquedos espalhados no tapete da sala: "papai, o que você tanto olha nesse celular?"

Nada, filha, e nesse caso fui sincero. Nada que não pudesse ficar para depois, nada que não pudesse ficar, por exemplo, para nunca. Deixo o aparelho de lado e tento me concentrar na brincadeira. Sinto a comichão de dar aquela última – "última" – fuçada: ainda não vi a caixa de e-mails nesta tarde, fiquei devendo um "amei" a uma amiga que mudou de emprego, qualquer bobagem assemelhada. Um jogo de estímulo e recompensa em que no lugar do celular poderia estar a bebida, o cigarro, a roleta. Como é mesmo que se chama essa relação compulsiva que nos impede de largar um objeto que nos faz mal?

Não me considero hard user (autoengano?), mas já fiz inúmeras tentativas de detox digital. Desinstalei o App do Facebook no celular e escrevi no meus status de WhatsApp: "por aqui de 2ª a 6ª, no horário comercial". Fracassos estrepitosos. Em parte pela pressão social, aquele acordo tácito, espécie de CLT contemporânea para trabalho, amigos e família, de que todo mundo tem de estar online 100% do tempo. Em parte por haver desaprendido a conviver com a sensação de não fazer nada.

O que fazer para tomar de volta a atenção que nos foi roubada? Agora me dou conta do contrassenso de falar isso no meio digital, contribuindo para esse sequestro…

Se você tiver uma boa resposta, por favor contribua nos comentários. De minha parte, não vejo outro caminho senão insistir numa tomada de consciência. As redes sociais têm um componente viciante que exige de nós moderação. Isso significa, a meu ver, transformar o celular em peso de papel mais vezes ao dia. E conviver com o desconforto – a princípio será essa a emoção mais evidente – de estar fora do ar. Havia vida antes dos conteúdos infinitos e deve haver depois. Talvez um velho futuro em que ócio, tédio e devaneio não sejam inimigos, mas portais potentes para a criação e a fruição. Criar, fruir: não seria isso a vida?

(Já terminei. Agora, com licença que vou tentar pela undécima vez desligar tudo sem me importar com as curtidas e comentários que este texto vai ter. Se é que vai ter. Última espiada…)

Sobre o autor

Rodrigo Ratier é jornalista, professor universitário, pai de duas, curioso pela vida, entusiasta do contraditório

Sobre o blog

Olhares e provocações sobre a vida cotidiana: família, trabalho, amizade, educação, cultura – e o que vier pela frente