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Em Desconstrução

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Professor é essencial contra fake news (incluindo as sobre ele)

Rodrigo Ratier

15/10/2018 13h36

(Crédito: Freeimages/Heriberto Herrera)

Sou professor e jornalista – hoje me defino nessa ordem. Tempo atrás, resolvi seguir o conselho de um amigo na mesma situação: toda vez em que ele fazia check in num hotel, preenchia o campo "profissão" escrevendo professor em vez de jornalista. E se considerava mais admirado, mais bem tratado. Comecei a fazer o mesmo. E, sei lá se é efeito psicológico ou algum tipo de viés de confirmação, também me senti mais querido.

Não é que eu não goste de ser jornalista. Gosto muito. Mas adoro ser professor. Em 1999, em crise com o estágio numa revista em que eu escrevia sobre quantos grãos de areia existem na praia, estações espaciais em Marte e o fim da espera pelo carro voador, decidi largar tudo para ser professor num cursinho comunitário que ajudei a criar.

Foi amor à primeira lousa. Mesmo sem experiência – o que significa que eu ensinava toscamente, à moda do que aprendi –, me encantei por essa coisa de dar aulas. Poder contribuir de alguma forma para o desenvolvimento de outras pessoas foi um combustível poderoso para o meu idealismo.

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Anos depois, tive uma ducha de água fria numa temporada de três anos no Ensino Médio particular. Eu não tinha a formação adequada e a escola não garantia as condições necessárias. Resultado, aulas medíocres. Entendi na prática que a docência é um trabalho coletivo e muito sério, e que toda profissão tem seus aspectos positivos e negativos. Fiz minha reconciliação com o jornalismo, mas sigo com um pé em cada canoas. Hoje, atuando no ensino superior, me sinto reconhecido e energizado pelo contato com o conhecimento, os colegas e os alunos. Foi um convívio fundamental para tocar a vida em frente depois da morte do meu pai, no ano passado.

Aprendi que as visões sociais sobre a profissão são, em geral, equivocadas. Há muito circulam dois mitos opostos: de um lado, o professor "coitado". Do outro, o professor "herói". Na minha visão, não somos nem uma coisa nem outra. É verdade que provavelmente nunca foi tão difícil dar aulas. As famílias não são tão presentes, a escola é menos atraente que as telas múltiplas de nosso cotidiano, o currículo pouco dialoga com a realidade de crianças e jovens e por aí vai. Para não falar de carências estruturais, como os baixos salários, a insegurança e a má formação.  São, porém, dificuldades inerentes a outras ocupações. O fato de que a maioria dos educadores não desiste diante delas indica que as recompensas (como as que mencionei alguns parágrafos acima) ainda valem a pena.

Também é distorcida a ideia de que o professor precisa lecionar "por amor". Por mais que exista idealismo na profissão – fato comprovável em pesquisas –, o educador e a educadora são, acima de tudo, profissionais. Merecem ser bem remunerados por suas tarefas. Merecem ter condições dignas de trabalho. Merecem ser reconhecidos pela sociedade pelo que ofício que desempenham.

Assisto com tristeza à construção de um terceiro mito, de todos talvez o mais desprovido de evidências, que é a ideia do professor "doutrinador". Uma aliança conservadora composta por igrejas, parlamentares de direita e movimentos como o Escola Sem Partido tenta colar esse rótulo na testa dos professores brasileiros. Enxergando os alunos como um audiência dócil e cativa, esses grupos afirmam que os professores são militantes travestidos, sempre a postos para fazer a cabeça das turmas. Os perigos, dizem, seriam a doutrinação política (a "ameaça comunista", de contornos cada vez mais largos, abrangendo Miriam Leitão e Francis Fukuyama) e sexual (oposição à chamada "ideologia de gênero", um termo que nada tem de cientifico. É político e foi criado por essa aliança).

Como "prova" dessa ameaça, o que apresentam? Algumas dezenas de vídeos de suposta "doutrinação". O Brasil tem 53 milhões de estudantes. Se esses "flagrantes" provam alguma coisa é que existem bons e maus profissionais em todas as áreas. Ninguém discute que a transmissão enviesada de conhecimentos deve ser combatida. Mas elevar o suposto problema ao patamar de questão relevante para o debate público é algo que só se explica pela estratégia conservadora – bem sucedida, diga-se de passagem – de provocar o pânico moral na população.

O objetivo cada vez mais evidente desses grupos é tomar o poder. E, uma vez lá, reescrever a História. Estereotipam-se questões legítimas como a Ditadura Militar e a discussão de gênero como "comunistas", "gayzistas", enquanto abre-se espaço para o revisionismo histórico e o silenciamento de minorias em direitos. O pacote todo é vendido como "não-ideológico" – que, como se sabe, é o nome fantasia dado aos relatos dos vencedores.

Quem convive minimamente com o cotidiano de uma escola sabe que a imagem projetada pelos conservadores não passa de uma notícia falsa. Dividem espaço docentes de múltiplas ideologias na sala dos professores, onde não raro testemunha-se discussões acaloradas. Alunos não são dóceis e robotizados. Ao contrário, quem já pisou numa sala de aula sabe o quanto é difícil dialogar com eles e engajá-los no que quer que seja. A escola, enfim, não está isolada da sociedade. Compartilha com a família, os grupos de amigos, a igreja e a mídia a construção das identidades dos alunos. É uma competição e tanto. A escola tem, é claro, sua influência, mas não detém e nunca deteve a primazia na formação de conceitos e ideias na cabeça de crianças e jovens. Há um caminhão de pesquisas na Sociologia da Educação a comprovar esse fato. Ignorá-las é falta de informação ou má fé.

É nesse ambiente turvado por estereótipos e informações mentirosas que o professor se faz cada vez mais necessário. A equação é simples: se publicassem notícias falsas, mas ninguém acreditasse, não haveria problema, pois as lorotas morreriam no nascedouro. A única forma de garantir que isso ocorra é por meio da educação. O professor tem como função ajudar o aluno a pensar por conta própria, auxiliando-o a ser questionador e crítico.

A Educação, enfim, é o melhor remédio para a desinformação. Por isso defendo que, em tempos de fake news, o professor é mais necessário do que nunca – inclusive para ajudar a combater as visões equivocadas de que ele próprio é vítima. Os que querem demonizar a docência passarão. Restaremos nós, trabalhando no dia a dia para formar alunos autônomos e independentes, capazes de tomar boas decisões para si e para os outros.

Sobre o autor

Rodrigo Ratier é jornalista, professor universitário, pai de duas, curioso pela vida, entusiasta do contraditório

Sobre o blog

Olhares e provocações sobre a vida cotidiana: família, trabalho, amizade, educação, cultura – e o que vier pela frente