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Em Desconstrução

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Para professoras, alfabetização do MEC ignora realidade das aulas

Rodrigo Ratier

23/08/2019 04h00

(Crédito: Ned Horton/Freeimages)

O que é preciso para ter um trabalho de alfabetização bem feito?

Um slide da professora Ticiane Maria de Souza Silva, da rede municipal de Sobral (CE), enumera alguns ingredientes: foco nos objetivos, estratégias lúdicas e inovadoras, compromisso, formação, planejamento, rotina, gestão de sala, nenhum aluno a menos, estímulo, atividades no contraturno a partir do 1º ano e equilíbrio entre autonomia e acompanhamento.

A lista é grande, mas você percebeu que não há nenhuma menção à "método de alfabetização"? Guarde essa informação. Voltaremos a ela depois.

Ticiane não é uma professora qualquer. Sobral não é uma rede qualquer. A educadora, especialista em gestão escolar e em educação infantil, atualmente é diretora e faz parte do grupo que desenvolve a proposta pedagógica de creches e pré-escolas do município com as melhores notas nas avaliações de aprendizagem do Brasil. No 3º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação, realizado no começo da semana em São Paulo, Ticiane protagonizou uma mesa sobre alfabetização na prática. A seu lado, outra professora de destaque, de uma rede de destaque: Mirlene Barcelos, envolvida com alfabetização há quase três décadas em Lagoa Santa (MG), outro município que costuma se sair muito bem quando o assunto são as avaliações do Ensino Fundamental.

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Nem Ticiane nem Mirlene nem outras professoras do chamado "chão da escola" foram ouvidas pelo Ministério da Educação para a construção do caderno que detalha a nova política de alfabetização, recém-lançada pelo MEC. Como registrou o repórter Paulo Saldaña, da Folha de S. Paulo, a apresentação do documento se deu sem a presença dos secretários municipais –que são quem, de fato, zela pela implementação dos programas.

O uso maldoso da ideia de "evidência científica"

Talvez por isso boa parte do caderno se dedique à defesa de um aspecto que as educadoras não elencam como prioritário. Sob variadas denominações, apresenta-se um método de alfabetização –o fônico, que se foca na relação entre letras e sons– como aquele que, segundo "evidências de pesquisas", daria os melhores resultados na avaliação.

A discussão pode soar estranha para quem não é da área. Um pouco de contexto: há algumas décadas, as políticas de alfabetização no Brasil oscilavam entre diferentes metodologias que, de modo geral, punham foco ou na já citada relação grafema-fonema, ou na compreensão global de palavras e textos, respeitando a progressão das hipóteses de pensamento das crianças, como forma de ensinar a ler e a escrever. Hoje se sabe que tudo isso é fundamental.

Pois o MEC ressuscita essa briga de maneira –para a surpresa de ninguém– maldosa, utilizando o termo "evidência científica" de maneira abusiva. Diga-se de passagem, trata-se de estratégia recorrente de certos atores da educação: apresentam-se estatísticas, comparações, melhores relação de custo-benefício de uma solução em relação à outra como sendo a prova irrefutável, cabal, "evidente", da opção selecionada.

Ocorre que todo número e toda pesquisa podem ser problematizados. E que, muitas vezes, estudos podem chegar a "evidências" contrárias simplesmente por seguirem metodologias diferentes. No caso do uso abusivo do termo, o pulo do gato está em ignorar as contraevidências, apresentando-as como coisa de gente "irracional", "dogmática", "ideológica", "resistente às mudanças". 

Como dissemos, essa "edição da realidade" é comum nos "estudos guiados por evidências". Mas ao menos em um aspecto o MEC inovou: as 56 páginas do documento fazem 46 menções à ideia de evidências científicas sem que se apresente uma única comparação, estatística ou relação de custo-benefício entre métodos –portanto, nenhuma "evidência" da superioridade do que o caderno chama de práticas da ciência cognitiva da leitura. 

A opção pela vingança

A impressão que se tem é que o documento tenta convencer convocando à fala especialistas que defendam o método fônico –exclusivamente eles– e repetindo "evidências", "evidências", "evidências" como um mantra para emplacar um engodo. Em artigo recente na Folha de S. Paulo, Beatriz Cardoso e Alexsandro Santos vão na mesma linha de crítica, de uma maneira até mais contundente: chamam de falácia a afirmação do MEC de que o método fônico seria a única solução baseada em evidências. "As evidências científicas em torno de propostas construtivistas também são abundantes e robustas", escrevem.

Voltemos à sala de aula. Mais recentemente, as políticas públicas têm passado ao largo da "guerra dos métodos" e optado por um ecletismo metodológico. A opção não é isenta de críticas, mas parece espelhar melhor o que concretamente ocorre nas escolas brasileiras. "Método não é a principal discussão para a garantia da alfabetização", afirma Ticiane. "Não dá para dizer 'vou usar apenas um método'. O que se almeja é que as crianças se alfabetizem de alguma forma e, nesse caminho, pode ser necessário lançar mão de muitas estratégias".

Sobre o caderno do MEC, a educadora questiona: "Será que estamos começando pelo caminho certo ao ter um caderno dizendo que tem de tratar do método? Seria melhor focar no que é essencial: formação, decisão em rede, investimento". Mirlene, por sua vez, aponta a falta de diálogo da proposta: "Não é impondo políticas que vamos conseguir resultados melhores. O que vem dessa forma, de cima para baixo, não engaja os professores nem gera aprendizagem". 

Vale para a alfabetização e muitas outras ações: o autoritarismo tem sido a tônica da atual gestão do MEC. Em vez de aprimorar o que é realmente necessário –planejamento, formação, avaliação, salário e infraestrutura–, Weintraub e trupe administram por vingança. Enxergando inimigos em toda parte (alunos, professores, reitores, Paulo Freire, "construtivistas", "comunistas", livros didáticos), requentam polêmicas e fogem do essencial — por não saberem o que fazer, por não verem serventia em estabelecer qualquer política digna do nome. O primeiro ponto parece evidente, mas segundo também faz sentido: num governo cujo único projeto é a destruição, todas as pastas devem trabalhar para sua própria implosão. Más notícias para quem tem esperança em um futuro melhor. A Educação, infelizmente, é um dos exemplos mais acabados de antiministério.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Rodrigo Ratier é jornalista, professor universitário, pai de duas, curioso pela vida, entusiasta do contraditório

Sobre o blog

Olhares e provocações sobre a vida cotidiana: família, trabalho, amizade, educação, cultura – e o que vier pela frente