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Em Desconstrução

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Primeira palavra dos bebês: minha filha trocou "papai" por um abacate

Rodrigo Ratier

05/12/2018 04h00

(Crédito: Pat Herman/Freeimages)

A primeira palavra de Luiza foi "qué". Dedinho em riste, apontando para o objeto de desejo, deu um salto quântico em sua independência ao nos indicar com clareza tudo o que queria: "qué" isso, "qué" aquilo, "qué" em dobro e sem desconto. Eu e minha esposa ficamos um pouco magoados, mas passou rápido. Entendemos que não dava para competir com o vasto mundo de maravilhas capitalistas ao alcance da mão. O "qué" genérico, convenhamos, é um adversário imbatível.

Com Clara, minha segunda filha, seria diferente. Ela é o meu xodó: busca meu colo, detesta que eu viaje e, para desgosto da mãe, protesta feito gente grande quando ela a tira de meus braços. Que ela falasse "papai" ou uma variante próxima era uma certeza prestes a acontecer.

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Pois bem: entrava a pequena em seu décimo mês quando julguei ouvir coisa semelhante a "papá". Nem deu tempo de ficar orgulhoso. Minha esposa explicou, com indisfarçável alegria em demolir minha soberba, que ela dizia outra coisa. O dedinho capitalista, sempre ele, indicava com volúpia aquela forma oval verde e gorda. Para não deixar dúvidas, o balbucio completava a mensagem:

– Bacá!

"Bacá"? Que mané "bacá", minha filha? Papai te faz dormir de madrugada, prepara sua comida, esquenta seu leite, te carrega no colo, de canguru e de cavalinho, brinca de "achou!", faz palhaçada, troca sua fralda e finge que o body não ficou sujo de cocô… Tudo para você me trocar por um troço caroçudo e gordo, que de tão desengonçado nem parece fruta? Faça-me o favor!

Respiro fundo e recomponho o que sobrou de minha autoestima. Decido degustar minha nêmesis com Clara. Há muito tempo eu não comia um abacate. A textura macia e aveludada, o gosto suave de quase nada me fazem viajar ao passado. Era costume em minha família preparar abacate com açúcar e limão. Terça era dia de feira e ele chegava madurinho: logo virou sinônimo de dia de abacate no lanche da tarde. Aparentemente, só eu me desviei do bom caminho: minha irmã vibrou quando soube da primeira palavra da afilhada. Até hoje, abacate é sua fruta preferida. Admirei sua popularidade.

Enveredei por caminhos internacionais. Conheci o abacate no guacamole e na salada – salgado, como se come na maior parte do mundo. Fiquei sabendo que ele está presente sanduíches, sopas, molhos, sucos, mousses, sorvetes e cremes. Poucos alimentos são tão multiuso. Invejei sua polivalência.

Não para por aí. Parece que a fruta, além de gostosa, faz um bem danado à saúde. É cheia de nutrientes e de matérias-primas para tratamentos de beleza. Diz-se que as folhas quentes amenizam a dor de cabeça, enquanto seu óleo combate reumatismo e gota. A casca entra como ingrediente de remédios contra verminose e até o desproporcional caroço, tostado e moído, tem utilidade para travar a diarreia! Me espantei com sua utilidade.

Para encerrar a competição de uma vez, vasculho a memória musical e me recordo de que o abacate já foi "muso inspirador" de um dos maiores nomes de nosso cancioneiro. Seu ciclo de vida serve de mote aos singelos e geniais versos de "Refazenda", de Gilberto Gil:

Abacateiro acataremos seu ato
Nós também somos do mato como o pato e o leão
Aguardaremos, brincaremos no regato
Até que nos tragam frutos teu amor, teu coração

Me rendi à sua poesia.

Portanto, filhota, estamos de acordo: o abacate é melhor que eu. Só podíamos combinar que você vai me dar uma moralzinha na sua segunda palavra, que tal? Papai te promete um "bacá".

Sobre o autor

Rodrigo Ratier é jornalista, professor universitário, pai de duas, curioso pela vida, entusiasta do contraditório

Sobre o blog

Olhares e provocações sobre a vida cotidiana: família, trabalho, amizade, educação, cultura – e o que vier pela frente