Em Desconstrução

Temos horror ao silêncio, mas deveríamos amá-lo

Rodrigo Ratier

17/05/2018 16h54

(Crédito: NG/Flickr)

Leio em “A Democracia Impedida”, de Wanderley Guilherme dos Santos (um grande livro, sobre o qual podemos conversar mais adiante) uma observação prosaica e verdadeira. A certa altura, o autor observa que, no início das partidas de futebol, o “obsequioso minuto de silêncio” se encontra reduzido a, no máximo, 30 segundos. Se o tempo de vazio diminuiu, o desconforto por ele ocasionado, paradoxalmente, aumentou. Diz Wanderley: “O que era concentração antes da disputa converteu-se em sufocante presença de um tempo parado no ar, espremido entre futuros em competição.”

Temos horror ao silêncio. Para alguns, a interrupção na comunicação, ainda que momentânea, equivale à morte. Gravitam em torno do silêncio diversos entendimentos negativos. Num encontro amoroso, remete ao fracasso (“Acabou o assunto, não temos nada a ver”). Numa aula ou apresentação, indica superficialidade intelectual (“Deus me livre de ter um branco na frente de todo mundo”). Na televisão ou no rádio, quando ocorre algum problema técnico (“Perdemos o contato com o repórter. Vamos à próxima notícia”). Nas redes sociais, à própria invisibilidade (“Publico, faço texto, selfie e polemizo, logo existo”).

A fuga do silêncio é também uma fuga de si. A ausência de comunicação nos obriga a olhar para a torrente incessante de pensamentos, o que pode ser um fardo para alguns. Para driblar sentimentos e ideias que preferimos não encarar, recorremos a estímulos que nos desviem a atenção. Música, TV, internet, trabalho, bebida, droga. Um ciclo estranho é posto em marcha: o silêncio revela o barulho interno que precisa ser silenciado com mais barulho.

Aflição e incômodo não são decorrências inevitáveis do silêncio. Quando muito, são parte de sua verdade, suas faces mais visíveis, mas apenas porque são as que decidimos iluminar. Não existe som sem silêncio. A presença precisa da ausência para se constituir e, desse ponto de vista, o silêncio também é uma forma de comunicação. E com efeitos positivos.

O silêncio é prazer. Em “Pra Ninguém”, Caetano Veloso enumera uma série de intérpretes e canções que adora (“Nana cantando ‘Nesse mesmo lugar’ / Tim Maia cantando ‘Arrastão’ / Bethânia cantando ‘A primeira manhã’) para dizer que o silêncio supera todas essas maravilhas – e na visão de Caetano, só perde para João Gilberto. O que, convenhamos, é um honroso vice-campeonato.

O silêncio é aprendizado. Adotar postura mais baseada na escuta do que na fala é atitude de quem quer saber mais. Tanto melhor quando o ato é uma escuta autêntica, em estado de presença e atenção ao que diz o interlocutor, e não uma pausa para a ruminação mental, às vezes automática, focada na preparação do que se vai responder.

O silêncio é autoconhecimento. Práticas meditativas incentivam o silêncio como forma de encarar os próprios pensamentos. Em princípio, com desconforto, pois o que virá é a agitação interna. Quem persiste, porém, costuma relatar um progressivo aquietamento mental e sensação de bem-estar. Silêncio chama mais silêncio.

O silêncio é caminho para revelações. Psicanalistas, jornalistas e outros profissionais da palavra não apenas aceitam o silêncio. Eles o buscam, pois sabem que a recusa em preenchê-lo revela uma resistência que, quando finalmente superada, traz a abertura ao inconsciente que estava escondido ou em conflito (no caso de quem está no divã) e a confissão exclusiva e inesperada (no caso dos entrevistados). Nas duas ocorrências, uma revelação.

Há, por fim, o amor. Não é outra coisa o tempo diante de um bebê, que ainda não tem pudor de ser encarado nos olhos durante longos minutos, não tem vergonha de encarar de volta e de deixar que o silêncio opere o misterioso e maravilhoso efeito de conectar duas pessoas em um nível mais profundo do que as palavras podem explicar.

Sobre o autor

Rodrigo Ratier é jornalista, professor universitário, pai de duas, curioso pela vida, entusiasta do contraditório

Sobre o blog

Olhares e provocações sobre a vida cotidiana: família, trabalho, amizade, educação, cultura – e o que vier pela frente

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