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Em Desconstrução

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Depois de 15 anos de terapia, encontrei o melhor divã: ser pai

Rodrigo Ratier

12/08/2018 04h00

Crédito: Freeimages/M Nota

Do momento trivial que ganharia importância inesperada guardo lembranças vagas. Era apenas a rotina. Fiz o café sem empolgação e esperei que ela acordasse. Luiza surgiu na sala, como de costume sem dizer bom dia. Sentou no sofá e esperou que eu ligasse a TV. Assistimos algo juntos, lemos um livro no tapete e fomos nos arrumar para sair. Ela, rumo ao semi-integral da turma de dois anos na escolinha. Eu, em direção ao hospital, onde chegaria ainda a tempo de ver meu pai morrer, depois de sete meses de luta contra uma leucemia.

Naquele dia eu não chorei. Na confusão de um cérebro ansioso e acelerado diante do momento mais duro da vida até então, de tempos em tempos vinham flashes daquele manhã prosaica na frente do tapete e da TV. Pensar que aquilo iria se repetir no dia seguinte – PRECISAVA se repetir – me fez sentir que a vida, apesar da tristeza, continuaria.

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Fiz muitos anos de terapia – entre idas e vindas, uns 15, eu diria. Só deixei de ver necessidade naqueles encontros semanais depois de me tornar pai. Não acho que seja coincidência. A psicanálise e as diversas formas de terapia representam um movimento de mergulho para dentro de si próprio.

Por meio da fala e dos silêncios, vamos aos poucos nos dando conta de quem somos, fazendo as pazes com nossos demônios e seguindo adiante mais leves. Isso, claro, quando tudo dá certo, quando o/a terapeuta sabe o que está fazendo e quando nós temos coragem de colocar as questões importantes e olhar para elas de verdade. Fora desse cenário, há um bocado de perda de tempo, energia e dinheiro.

Ocorre que, quando nasce um filho, a dúvida cruel "quem sou eu?" deixa de ser tão importante. A paternidade é uma passagem em que a pessoa mais importante da sua vida deixa de ser você. Perde-se um bocado com essa mudança. O tempo, e a escolha do que fazer com ele, deixam de nos pertencer inteiramente. Piora quando chega o segundo filho – e nem menciono os malucos corajosos pais de três ou mais. São deuses ou zumbis?

Mas no perde-ganha o saldo é para lá de positivo. Vou deixar de fora a linha de receita mais robusta do superávit – o amor recebido e a alegria de ajudar um ser humano a crescer. Penso no ganho psicológico de não ter tanto o foco em si. É uma transformação fortíssima, que pode fazer certos conflitos e encanações desaparecerem completamente.

Acho que passamos uma parte importante de nossas vidas imersos numa egotrip meio sem sentido. Usei muito a terapia para discutir questões ligadas, por exemplo, ao trabalho. Tudo isso pareceu risível quando as meninas chegaram. Dito de outra forma: ganharam o tamanho (pequeno) que têm de ter diante da coisas que importam na vida. Vejo validade na frase – um pouco ofensiva, reconheço – dita quando estamos rodando em círculos em torno de uma dúvida desimportante: "vai buscar um terreno para carpir".

Luiza e Clara são meu terreno, minha horta, minha floresta. Trocar fraldas, preparar o banho, fazer comida, arrumar o uniforme, levar à escola, brincar, brincar, brincar. Elas exigem um foco e uma presença que não deixam escolhas: preciso estar plenamente com elas. É cansativo, mas também é um chamado poderoso. Tem alguns dias de desânimo em que tudo o que precisamos é de uma criança chorando de fome, nos obrigando a sair da cama. Ou uma mãozinha puxando o cobertor dizendo que quer conversar.

Crianças são nosso estímulo para enfrentar os sofrimentos! Por falar nisso, meninas, minha dica de presente do dia dos pais é aquele uniforme do Santos inspirado na bandeira da Inglaterra. Em termos futebolísticos, esse ano está osso e o papai como sempre conta com vocês para tocar em frente.

Sobre o autor

Rodrigo Ratier é jornalista, professor universitário, pai de duas, curioso pela vida, entusiasta do contraditório

Sobre o blog

Olhares e provocações sobre a vida cotidiana: família, trabalho, amizade, educação, cultura – e o que vier pela frente