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Em Desconstrução

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Pedro Scooby deve saber: a vida de pai não está no Instagram (e isso é bom)

Rodrigo Ratier

06/07/2019 04h00

(Reprodução Instagram)

Me perguntam se Pedro Scooby é um bom pai. Respondo, e só posso responder isso, que não tenho a menor ideia, aliás não sei bem quem é Pedro Scooby. Me explicam que é o ex da Luana Piovani, atual da Anitta e que sua mais nova polêmica (aparentemente, ele se mete em algumas) é ter aparecido para ver os filhos (são três) e ter registrado (óbvio) nas redes sociais os petizes cantando músicas da funkeira. Anitta ainda é funkeira, ou já foi em algum momento? Divago: fico sabendo que a postagem enfureceu La Piovani, que também pelas redes sociais (óbvio) recomendou a leitura de Monteiro Lobato contra o "emburrecimento".

E aí?, me questionam novamente, Pedro Scooby é um bom pai? A resposta continua a mesma, mas a pergunta agora me fez pensar. Costumo dizer — e aqui não vai nenhuma crítica ao cara, que nem conheço — que é muito fácil pagar de paizão. 

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Como a concorrência ainda é fraca, inutilidades aleatórias que você faça com seus filhos são, aos olhos da sociedade, motivo de exaltação de suas extraordinárias qualidades. Levou sozinho no médico? Deslumbrante! Comprou sorvete? Altruísta! Buscou na escola? Anjo! Se você fraudar a realidade com emojis, digo, se postar qualquer uma dessas bobagens no Instagram… que homão da porra!

Falo em fraude da realidade não só porque as redes sociais são uma versão editada, tipo power point brega de casamento, sobre quem somos. Digo isso porque a vida com filhos é, em geral, um perrengue atrás do outro. Doença, fralda, insônia, choradeira, birra (uma infinidade delas), brigas (com os pequenos, em casal, com os parentes próximos, com os distantes, no trabalho e no trânsito), falta de tempo (para si, para os outros, para os filhos e para o mundo), de dinheiro (idem), de paciência (ibidem). 

Nenhuma dessas histórias vira stories no Insta. Nas redes, gente queixosa e com olheira não dá like, e se você manda essa real do parágrafo aí de cima, ela pode voltar como um bumerangue na sua cara: "se você reclama tanto, por que teve filhos?"

O raciocínio por trás da patada é que os momentos que valem a pena na paternidade/maternidade são do tipo que a gente publicaria nas redes. Para mim, é uma ideia mais falsa que filtro sépia. Claro que esses instantes são divinos. Mas em geral são apenas isso: instantes. Há importância, e também pode haver prazer, no trabalho inglório de acordar cedo, trocar fralda, fazer papinha, levar e buscar, esperar… 

As miudezas cotidianas são uma grande fonte de conhecimento mútuo. Penso na hora do sono e no tanto de confiança que é preciso construir para que uma criança durma em seus braços; na preparação das refeições e no significado de cozinhar para os outros, às vezes com os outros; na aula de natação, em que sua presença, mesmo do lado de fora da piscina, pode ser a diferença que faz o pequeno encarar a água; na arrumação da casa, em que todos estamos meio irritados e meio entediados juntos, mas estamos juntos.

Esse é o ponto: estar junto, fazendo não importa o quê. Reconhecer isso leva à constatação de que — eureca! —  é longe das telas que crescemos como pais e filhos. Quanto a Pedro Scooby, Luana e filhos, torço para que cresçam em paz. Opção que também depende, claro, deles.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Rodrigo Ratier é jornalista, professor universitário, pai de duas, curioso pela vida, entusiasta do contraditório

Sobre o blog

Olhares e provocações sobre a vida cotidiana: família, trabalho, amizade, educação, cultura – e o que vier pela frente