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Superferiadão é bom para descansar? Se você tiver filhos a lógica muda...

Rodrigo Ratier

21/11/2018 11h52

(Crédito: Danilo Takano/Freeimages)

 

Em alguma parte do mundo, alguém já disse – se não disse, deveria ter dito, pois se trata de uma verdade universal – que os restaurantes com "espaço kids" situam-se em um dos mais profundos círculos do inferno, onde se sente o cálido baforejar do Capeta em pessoa. A nitroglicerínica combinação de crianças gritando, pais sem paciência, garçons mal humorados e – não que isso faça muita diferença – comida repreensível faz do lugar algo próximo de um caldeirão a um nanossegundo da fervura. A sensação iminente é de que alguém – provavelmente, você – vai derreter num surto de fúria. Não é improvável, ainda, que tal ataque histérico sequer seja notado. Dada a balbúrdia e o caos rematado em que se encontra o ambiente, a fusão de seu reator nuclear talvez seja visto como manifestação trivial.

Divago em metáforas confusas. Voltemos à principal, o inferno. Pois bem: é nele que estamos, numa segunda-feira. Em sincronicidade junguiana exemplar, todas as famílias da Zona Oeste paulistana com filhos pequenos têm a mesma e infeliz ideia: "que tal se fôssemos àquele restaurante com nome de continente, naquele shopping com nome de uísque, do lado daquele clube que não tem mundial?".

 

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O aglomerado humano lembra a capital de Bangladesh em dia de revolta. Detenho-me por um átimo na reação de pais e mães, categoria em que me incluo. Rostos cansados, exaustos, exauridos, derrotados, paciência em Júpiter ou algo próximo a Plutão. Comprovações evidentes de que não se trata de uma segunda-feira qualquer. Atravessamos a emenda de um feriado. Ou melhor, de um superferiadão, que na versão sem cortes pode chegar a intermináveis 6 dias. Àquela altura, falta um dia e meio, e esse parece ser o mantra de todos os pais que olham em vão para o céu ou para o celular, suplicando a Deus e à tecnologia por uma serenidade que não virá até que as próximas 36 horas tenham se esgotado.

White people problems, eu sei. Há flagelos sociais muito mais graves, gente passando fome, desemprego resiliente, futuro ministro que atribui o aquecimento global a uma conspiração marxista etc. Além disso, crianças são maravilhosas, uma dádiva e uma bênção e tal e coisa e lousa e mariposa apaixonada. E, para completar esta edificante lição de moral, feriados representam celebrações de comunhão familiar e de integração entre pais e filhos ronc zzzzz fiu.

Como diz o provérbio, o diabo mora nos detalhes. No caso em tela, os detalhes atendem pelo nome de Galinha Pintadinha, slime, parquinho de pula-pula com luz estroboscópica e trilha sonora de tomografia, piscinas lotadas, estradas lotadas, tablets sem bateria, celular sem internet, exaurimento de qualquer ideia de brincadeira, alimentar-se de restos de nuggets, crianças brigando por tudo e por nada – e, como queríamos demonstrar, restaurantes com espaço kids onde só quem sorri são as batatas smiles.

Amo imensamente minhas filhas. Minha vida é muito melhor com elas do que sem. Mas tô de boas dessas folgas de seis dias. Hoje de manhã, finda a travessia, me peguei assobiando alegremente a caminho de uma reunião chatíssima. É que 2019 promete ser um ano ótimo para quem detesta feriado.

Sobre o autor

Rodrigo Ratier é jornalista, professor universitário, pai de duas, curioso pela vida, entusiasta do contraditório

Sobre o blog

Olhares e provocações sobre a vida cotidiana: família, trabalho, amizade, educação, cultura – e o que vier pela frente

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