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Em Desconstrução

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Reduzir os evangélicos à Marcha para Jesus é simplificação grosseira

Universa

22/06/2019 17h03

Presidente Jair Bolsonaro participa da 27ª Marcha para Jesus em São Paulo, na quinta-feira (20). Foto: Jales Valquer/Framephoto/Estadão Conteúdo

A presença de um presidente da República sempre joga luz num evento. Foi assim com a aparição de Jair Bolsonaro na Marcha para Jesus, ação conjunta realizada por diversas denominações neopentecostais em todo o Brasil. Não se pode negar, porém, que o evento já tinha brilho próprio. A Marcha de 2019 é a 27a edição do evento trazido ao Brasil em 1993 pela Igreja Renascer em Cristo. Sempre foi gigante: organizadores falam em 3 milhões de pessoas nas ruas. A polícia não divulgou números.

Longe dos olhos da grande mídia até bem pouco tempo, esse público cresceu de maneira consistente ao longo das últimas duas décadas. O resultado, como ocorre na maioria das vezes, é um retrato embebido em preconceito e generalização. Os "crentes" seriam radicais religiosos, conservadores, manipulados por pregadores inescrupulosos interessados em esfolar os fiéis pelo dízimo. Como todo estereótipo, há um bocado de imprecisão — e outro tanto de desumanização, o que faz com que a empatia pelo grupo retratado de forma caricatural seja baixa.

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A primeira imprecisão é falar genericamente em "evangélicos". Existem inúmeras denominações neopentecostais no Brasil, cada uma com suas próprias liturgias e leituras da Bíblia. O podcast Café da Manhã da Folha de S. Paulo, traz uma análise interessante dessa pluralidade invisível. No programa, a repórter Anna Virginia Balloussier, veterana na cobertura das Marchas para Jesus, conta que uma das grandes queixas dos fiéis é justamente a visão unidimensional que a mídia faz deles, reduzindo a complexidade dessas pessoas apenas ao aspecto religioso.

Evangélicos tem, sim, uma religião com características fortes — o aspecto missionário e de conversão é provavelmente a mais perceptível delas. "Isso ocorre porque o neopentecostalismo é prosélita, ou seja, tem interesse em expor ao máximo à religião, evangelizar", explica Gabriela Valente, doutoranda da Faculdade de Educação na FEUSP com uma tese sobre as interfaces entre educação e religião. Não se pode esquecer, porém, que essas pessoas também exercem outros papéis sociais: são pais e mães, alunos, trabalhadores, consomem mídia, participam de grupos diversos.

Dessas interações — a chamada socialização — vão surgir são também formas de agir e de pensar que vão constituir a identidade dos "evangélicos". A ênfase na meritocracia e no empreendedorismo, por exemplo, não está presente apenas em certas exegeses neopentecostais, mas no pensamento liberal que alicerça o próprio capitalismo. Idem em relação ao conservadorismo, como aponta o pesquisador Ronaldo de Almeida no artigo "A Onda quebrada: evangélicos e conservadorismo".

Sobre a tal onda conservadora, Ronaldo escreve: "A religião, as religiões, os religiosos fazem parte desse movimento mais amplo, sendo constituintes e constituídos por ele. Os evangélicos não são causa nem resultante, mas estão articulados ao processo social mais geral. Assim como nem todos os evangélicos são conservadores" — chamam a atenção o caso das igrejas evangélicas gay friendly — "a pauta conservadora vai além dos evangélicos conservadores. Dela participam também católicos, outras religiões e não religiosos".

Nos momentos de choque, porém, há uma diferença importante. "As pesquisas mostram que, no caso dos neopentecostais, existe uma espécie de hierarquia de socializações. Em situações de impasse, a religião e os valores familiares costumam contar mais para um fiel do que, digamos, questões ligadas à cidadania e aos direitos humanos", afirma Gabriela.

Definitivamente problemática é a mistura entre religião e política. Há diversos estudos que identificam em determinadas igrejas evangélicas um projeto de poder — o televangelismo e a presença de lideranças religiosas no legislativo e, mais recentemente, no serviço público, são as facetas mais visíveis.

Ao fazer da Marcha um palanque, anunciando inclusive planos para a reeleição, Bolsonaro pega carona nesse bonde questionável. "É complicado um presidente aparecer como pessoa pública e discursar num evento desse tipo. A única forma de respeitar todas as crenças é garantindo a laicidade do estado, a neutralidade religiosa. Bolsonaro não apenas legitimou uma crença específica como associou o estado à religião", finaliza Gabriela.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Rodrigo Ratier é jornalista, professor universitário, pai de duas, curioso pela vida, entusiasta do contraditório

Sobre o blog

Olhares e provocações sobre a vida cotidiana: família, trabalho, amizade, educação, cultura – e o que vier pela frente