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Em Desconstrução

A força estranha que me puxou durante o luto

Rodrigo Ratier

24/03/2018 12h23

Sua mão seguia quente e forte. Eu a toquei e era como se você estivesse apertando de volta com firmeza, sua marca registrada. Uma pessoa sedada pode agir assim? Ou é você que ainda estava lá, pai? Não consegui saber. Cinco minutos depois de chegar esbaforido ao hospital e te abraçar, tive um presságio. Perguntei para a enfermeira: como a gente vai saber quando a morte chegar? Ela esticou o estetoscópio até alcançar seu pescoço. Não havia mais nada. Ela disse: "Foi".

Faz um ano hoje. Às vezes acho que faz um século, às vezes penso que foi um sopro. Faz um ano que você morreu e que começou a nascer em mim um novo homem. No interminável dia de sua cremação, foi minha função "liberar seu corpo". A expressão é grosseira mas a morte também é, e a desumanização que veio a seguir talvez tenha servido como um choque terapêutico para me colocar, sem eufemismos, diante da concretude do fim. A frieza da certidão de óbito ("insuficiência respiratória, leucemia mielóide aguda, múltiplas metástases"), a brutalidade do agente funerário que me apresentou um caixão e perguntou se você cabia ali, a última imagem inesquecível de você estendido e rijo, lábios alaranjados, mãos cerradas, as mãos cerradas que me impressionaram e que não eram suas, você era o cara mais mão aberta e generoso que já caminhou pela Terra, o que obviamente é um exagero, mas eu posso exagerar porque você é meu pai e todo filho deveria idolatrar o pai até completar 98 anos, mais ou menos.

Não sei como sobrevivi àquele dia. Não sei bem como sobrevivi aos outros 364 desde então. O fato é que estou aqui, e não sei se você vai ficar decepcionado ou orgulhoso, pai, mas não foi tão difícil assim. A vida foi seguindo complicada porque assim é a vida. Mas não fiquei e não estou muito mal. Isso me surpreende.

Ainda não chorei. Sinto que esse momento está próximo, mas também me disseram que talvez eu já tenha chorado e que esses textos sobre você, alguns públicos, outros íntimos, são minhas lágrimas. Não fiquei insensível, mas estou menos sensível. Nos dias de otimismo acho que me tornei mais resiliente – palavra da moda, ou cascudo, como você diria. Nos outros dias tento não achar nada. Tento nadar. "Just keep swimming". Penso na sabedoria da peixinha Dory de Procurando Nemo e apenas continuo nadando. Estive triste, mas não me desesperei. Estive desanimado, mas não desisti. Me sinto puxado por uma força estranha e misteriosa que não consigo explicar.

"Sempre alegre", foi o único grande pedido que você me fez. Talvez você me achasse triste e durante um tempo talvez eu tenha sido. Sempre alegre foi o recado que eu colei na baia do escritório num emprego que já não existe mais, um lembrete à altura dos olhos e do desafio. Sempre alegre era o que você era, irritantemente alegre, irrealisticamente alegre.

Busco seguir o mandamento à minha maneira, tentando rir da vida e não levar tudo tão a sério. Às vezes, consigo. Então penso que, do meu jeito, o novo homem que está nascendo é mais parecido com você. Talvez essa sua vida que existe em mim seja a força estranha e misteriosa que me empurra adiante. Ouvi muitas vezes um homem sabido dizer que quem ama nunca morre, porque o amor é imortal. Hoje compreendo melhor essa verdade que nada tem de transcendental, é pura sociologia.

Ou talvez seja um tiquinho transcendental. Quando olho para a Clara, a neta que você não conheceu, e me encanto com o sorriso tão frequente quanto inexplicável, é você que eu enxergo. Carrego um oceano de saudade, pai, mas sinto que você está aqui, em mim e nos meus, sempre alegres.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Rodrigo Ratier é jornalista, professor universitário, pai de duas, curioso pela vida, entusiasta do contraditório

Sobre o blog

Olhares e provocações sobre a vida cotidiana: família, trabalho, amizade, educação, cultura – e o que vier pela frente

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