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Em Desconstrução

Não troco minha vida de 40 por duas de 20

Rodrigo Ratier

08/06/2018 10h55

Mais velinhas para soprar (Crédito: Anthony Eden/Freeimages)

Não sou mais tola
Não mais me queixo
Não tenho medo
Nem esperança
Nada do que fiz
Por mais feliz
Está à altura
Do que há por fazer

Cheguei aos 40 assobiando os versos de "Sem Medo nem Esperança", música de Arthur Nogueira e Antônio Cícero gravada por Gal Costa. É capaz que rolem umas paradas meio desagradáveis daqui para a frente, como anuncia Mariliz Pereira Jorge em "Envelhecer é uma merda". Por enquanto, estou curtindo uma aterrissagem suave. Não é um começo, como exageram, nem o fim, como temem. Se nos cuidarmos e o acaso der um joinha, os 40 são um meio do caminho. Temos a chance, como canta Gal, de nos vermos "de fora de si", olhando para frente e para trás – torcendo para que o ponto de vista não seja o cume de um morro, com uma enorme ladeira abaixo adiante.

O risco da queda existe. Mas, até o momento, o título caça-cliques é verdadeiro: não troco minha vida de 40 por duas de 20. Diria que a maior vantagem é a conquista de alguma serenidade. Aquela sensação, quase certeza, de que o mundo não vai acabar amanhã. Não importa muito a aflição: pé na bunda, demissão, doença, quem sabe até a morte de alguém amado. Aos 40, já passamos por mais ou menos isso tudo (às vezes um monte de vezes) e (às vezes aos trancos e barrancos) continuamos de pé. De uma forma ou de outra, as coisas vão se ajeitando e nós seguimos em frente. Feridos, mas cascudos. A tal resiliência que está na moda leva tempo para ser forjada. Quando chega, é uma conquista permanente, um 7 a 1 na afobação da mocidade.

Os sonhos existem, mas são menos… eu ia dizer ambiciosos, mas isso eles podem seguir sendo. Os sonhos são menos idealizados, inalcançáveis. As metas são mais realistas, a cabeça está mais no presente do que no futuro. Há quem enxergue nessa perda de ingenuidade um certo cinismo diante da vida. Discordo. Saber que a mudança é difícil não significa abrir mão do desejo de transformar. Ao contrário, conhecer potências e limites pode ser um impulso. Uma dose de realismo calibra as ações de mudança e dá sentido às pequenas vitórias. Que, no fim, pode ser tudo o que consigamos comemorar na vida. E segue o jogo.

Certo, mas o ciático pinça, a lombar incomoda e esse papo está poliana demais. Podemos falar de algumas perdas inevitáveis, como a baixa no estoque de primeiras vezes. O ineditismo é uma das grandes felicidades da juventude e, aos 40, escasseia a sensação de frio na barriga: já plantei árvore, já tive filho (duas), já escrevi livro (tese conta, né?). Que mais? É a pergunta recorrente. Uma boa resposta, eu acho, é: não sei, alguma coisa. Para quem se mexe, sempre há desafios e novidades, tanto no pessoal quanto no profissional, como diria o sábio oráculo da Vênus platinada.

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Essa história de "tempo de colheita" é menos verdade que no passado. É uma bobagem restringir o campo de oportunidades ao mercado de trabalho. Esse é, sim, mais cruel com o time dos anciãos que agora passo a integrar (embora seja reconfortante notar uma rede de solidariedade entre os mais velhos que, mais hora menos hora, vão sendo espirrados do barco). Falo daquelas outras coisas do tipo funde um partido, reforme uma praça, matricule-se na aula de zumba fit. Está liberado – eu, pelo menos, me sinto mais liberado agora que não me levo tão a sério.

E há também algo chamado "segunda primeira vez", que é redescobrir o mundo pelos olhos dos pequenos. Ninguém me pediu conselho, mas eu dou mesmo assim (estou de aniversário, oras): aos 40, acompanhe a vida de uma criança. Assista-a conhecer o mar, se encantar com a linguagem, aprender a pintar e a andar de bicicleta. Tudo isso nos faz redescobrir o mundo e ressignificar nossa relação com ele. Não precisa ser filho, qualquer criança, embora os filhos tenham o benefício incomparável de transformar sua vida num caos, enquanto o universo continua em expansão e você se dá conta de que a ambição de controle era apenas mais uma ilusão juvenil.

Por fim, ou melhor, por meio, que o fim esteja longe, oremos, lembro que Gal cantou pela primeira vez "Sem Medo nem Esperança" em 2015, aos 69 anos. O que me faz pensar num bom presente futuro: que essa música continue fazendo sentido para mim quando eu chegar nessa idade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Rodrigo Ratier é jornalista, professor universitário, pai de duas, curioso pela vida, entusiasta do contraditório

Sobre o blog

Olhares e provocações sobre a vida cotidiana: família, trabalho, amizade, educação, cultura – e o que vier pela frente

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