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Em Desconstrução

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Um conselho ao ministro da educação: volte para a escola

Rodrigo Ratier

07/05/2019 04h00

(Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

"Grandezas e medidas" é uma área básica da Matemática. Trata-se de um campo essencial para entender noções de maior, menor e igual. Na escolarização, aparece já na Educação Infantil. Em seguida, a área recebe uma unidade temática específica na Base Nacional Comum Curricular, contribuindo na ampliação da ideia de número.

No 2º ano, por exemplo, a BNCC diz que as crianças precisam estar aptas a comparar e ordenar números naturais. No 6º ano, devem fazer estimativas de quantidades e aproximar números para múltiplos da potência de 10 mais próxima. De modo que se espera que, ao concluir o Ensino Fundamental, todos sejam capazes de distinguir, com certa tranquilidade, a diferença entre 500 mil e 500 milhões.

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Pois essa área do conhecimento ganhou inesperado protagonismo numa fala do atual ministro da Educação Abraham Weintraub. Durante uma entrevista coletiva, o repórter Paulo Saldaña, da Folha de S. Paulo, perguntou ao ministro como era possível que o uma prova do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), que será aplicada a cerca de 7 milhões de estudantes, poderia custar modestos R$ 500 mil.

A resposta ficou registrada no vídeo abaixo. Weintraub não apenas defende entusiasticamente o número como parabeniza Elmer Vicenzi, o novo presidente do Inep, Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, responsável pela avaliação. "O Elmer veio para cá para fazer mágica. E já chegou jogando e marcando um gol."

Para ficar na metáfora de Weintraub, o VAR anulou o tento do presidente do Inep. Erros acontecem. É preocupante, porém, que uma quantia tão inverossímil para a realização de um exame nacional, com operações complexas da concepção das questões à tabulação de resultados, sequer chame a atenção do titular da pasta da Educação.

Weintraub faria bem a si próprio e ao país se voltasse à escola. E nem é por conta da confusão entre 500 mil e 500 milhões. É que sua visão sobre os problemas da educação é equivocada – caminha de mãos dadas, aliás, com a visão equivocada do governo Bolsonaro. Para o ministro, os males da educação são alunos e professores – o que novamente é coerente com sua trajetória de desavenças com colegas e estudantes na Unifesp, onde dá aulas.

São duas as linhas básicas de raciocínio: 1- docentes, como se sabe, são doutrinadores comunistas, que precisam ser controlados via filmagem de aulas; 2- alunos, por sua vez, são maconheiros, preguiçosos e depravados, que andam nas universidades exibindo seus sexos enquanto torram o dinheiro de impostos do povo trabalhador. É a isso que Wientraub alude quando fala da "balbúrdia" em instituições públicas, contrariando fatos e usando como exemplo três instituições bem posicionadas em rankings de avaliação.

O ministro está, outra vez, em companhia questionável: é assim que é levado a pensar quem frequenta os grupos públicos bolsonaristas de WhatsApp, onde circulam imagens e textos como estes:

(Crédito: reprodução Whatsapp)

 

A tática de desinformação é a mesma usada no episódio do golden shower de Bolsonaro e na estereotipação do movimento #elenão, ainda nas eleições. Recursos falaciosos como descontextualização (ausência de explicações sobre a foto), exemplar saliente (uso de fato raro como se fosse corriqueiro) e fake news (no caso, houve corte também na Educação Básica) constroem um retrato falso da educação brasileira, mas eficaz para mobilizar o pânico moral dos militantes mais aguerridos.

O grande drama é que os problemas da educação, que são conhecidos e bastante reais, permanecem inatacados. E no topo das dificuldades está a falta de recursos. Mesmo no ensino superior os patamares estão abaixo da média da OCDE, o clube das nações mais ricas do planeta. E na Educação Básica as redes mais pobres precisam se virar com o equivalente a R$ 250 mensais por aluno. Você conhece alguma escola particular de boa qualidade que cobre esse valor?

Os cortes anunciados provocaram indignação e revolta num setor operando no limite desde a imposição do teto de gastos pelo governo Temer. Muitas instituições sinalizam a impossibilidade de funcionamento no 2º semestre. Se voltasse à escola e à universidade, Weintraub teria muita dificuldade de encontrar gente pelada vagando a esmo pelo campus. Mas veria, com bastante frequência, laboratórios sem instrumentos, banheiros sem papel, elevadores parados, lixo acumulado, hospitais universitários destruídos, aulas sem professores ou com docentes voluntários, alunos sem bolsa, programas interrompidos.

Os cortes anunciados só vão agravar os problemas de verdade. Educação de qualidade custa caro e isso é algo difícil pôr na cabeça mesmo de gente muito séria. Tenho poucas esperanças de que um ministro que acha que um exame nacional custa 7 centavos por aluno vá entender isso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Rodrigo Ratier é jornalista, professor universitário, pai de duas, curioso pela vida, entusiasta do contraditório

Sobre o blog

Olhares e provocações sobre a vida cotidiana: família, trabalho, amizade, educação, cultura – e o que vier pela frente

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