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É hora de abandonar de vez o conceito de família desestruturada

Universa

18/05/2019 04h00

Foto: Pixabay

 

Segunda-feira era o pior dia. Pedro (nome fictício) apontava no portão da escola com fome, sujo e inquieto. Os professores se alarmavam. Aluno do Fundamental com deficiência intelectual, o menino pouco aprendia. Vivia numa casa com outros seis irmãos, a mãe e um pai sobre quem recaia suspeita de violência doméstica.

"A equipe nos apresentou o caso como um típico exemplo de 'família desestruturada'", conta Liliane Garcez, psicóloga e educadora que atua como uma das moderadoras do Diversa, projeto do Instituto Rodrigo Mendes (IRM). A ONG especializada em inclusão, fazia um trabalho de formação de educadores em cinco municípios. Liliane e a colega Patricia de Brito ouviram o relato e, em seguida, sugeriram uma reflexão: será que se tratava mesmo de uma família "desestruturada"?

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O caso fez a pergunta soar como provocação. "Procuramos combater o conceito e mostrar que a ideia de 'desestrutura' supõe que existe uma estrutura 'normal': pai, mãe casados uma única vez, com filhos, se possível dois, se possível um casal", explica Liliane. Ecos de uma época em que o único modelo de família era a do comercial de margarina.

Hoje, à base de muita luta, há maior aceitação para uma variedade de organizações familiares: arranjos monoparentais, com dois pais ou duas mães, criação por avós etc. O preconceito de classe, porém, persiste. A ponto de "família desestruturada" ser usada como eufemismo para família pobre. "Mulheres de classes populares sofrem um duplo preconceito", afirma Liliane. "As pessoas se sentem no direito de questionar o número de filhos que elas têm, se são todos do mesmo parceiro e dizer coisas como 'está no terceiro marido e não aprendeu'".

Binômios do tipo doença-cura, normal-anormal, estruturada-desestruturada conduzem a uma conclusão complicada: para resolver a situação, é preciso eliminar a causa do problema. Casos grave como o de Pedro poderiam indicar a entrada em cena do conselho tutelar e, no limite, a retirada da guarda. "Mas o próprio menino sempre foi firme ao dizer que queria estar com os irmãos e com a mãe. Percebemos que a melhor mãe para ele era a mãe que ele tinha", conta Liliane. No caso de Pedro, recorrer ao estereótipo da desestrutura poderia até aliviar a consciência dos professores de que o problema estava em outra parte. Mas não contribuía para uma solução.

O debate, então, mudou de foco: como ajudar para que se pudesse garantir para Pedro os direitos que toda criança tem – à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária? A lista do Estatuto da Criança e do Adolescente também acrescenta que estes são deveres não apenas da comunidade, da sociedade em geral e do poder público.

"Nesse sentido, é possível pensar numa ideia de família como uma rede de relações colaborativas que precisa cumprir determinadas funções", afirma Liliane. Ou seja, um conjunto articulado de pessoas e instituições que favoreçam o desenvolvimento das crianças – cujas atribuições não precisam estar necessariamente concentradas na figura do pai e da mãe. "Há inúmeras possibilidades de organização da família. Não interessa com quantas e quais pessoas, o importante é cumprir sua função", argumenta a educadora.

A colaboração ajudou a escola a tirar um peso dos ombros. Ao se articular com as secretarias de Assistência Social e Saúde, a equipe percebeu que era possível ajudar Pedro por meio de diferentes estratégias. A mãe passou a frequentar um Centro de Atenção Psicossocial, unidade especializada em saúde mental para tratamento e reinserção social. "Foi um caminho para ela se reencontrar e buscar exercer melhor suas funções como mãe", explica Liliane.

Paralelamente, os professores passaram a dar mais atenção às questões pedagógicas propriamente ditas. " Em poucos meses, Pedro melhorou no autocuidado, se integrou melhor à turma e passou a se interessar mais pelas aulas", conta a educadora. Sua família, ressignificada e ampliada, está mais pronta para dar a ele o que ele precisa para crescer.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Rodrigo Ratier é jornalista, professor universitário, pai de duas, curioso pela vida, entusiasta do contraditório

Sobre o blog

Olhares e provocações sobre a vida cotidiana: família, trabalho, amizade, educação, cultura – e o que vier pela frente

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