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Em Desconstrução

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Afterlife: como uma série sobre um suicida pode dizer algo sobre felicidade

Rodrigo Ratier

2027-03-20T19:04:00

27/03/2019 04h00

(Crédito: Divulgação Netflix)

"A felicidade é uma coisa fantástica. Tão fantástica que não importa se é sua ou não".

Aristóteles? Wittgenstein? Clarice Lispector? Caio F. Abreu? Não. Ricky Gervais. Um gênio – gênio do mal, para alguns. Não são poucos os episódios em que o ator, roteirista e escritor britânico causou espanto e revolta com sua graça politicamente incorreta. Ficaram célebres sua quatro participações como apresentador do Globo de Ouro. Suas ofensas hilariantes divertiram e enfureceram as maiores estrelas de Hollywood.

Gervais é a mente por trás do hoje clássico The Office. Com apenas 14 episódios, a corrosiva comédia sobre o ambiente corporativo inaugurou a tendência do pseudocumentário, com recursos como o diálogo dos atores direto com a câmera. Seu impagável David Brent inspirou uma versão americana mais adocicada, estrelada por Steve Carell.

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Na nova Afterlife – que a Netflix rebatizou com um subtítulo zagaliano, "Vocês vão ter de me engolir" –, Gervais assina roteiro, direção e papel principal. Aponta o dedo para um tema tabu. Suicídio. Tony Johnson, repórter de um pequeno jornal sensacionalista, é um viúvo que decide se matar quando a mulher perde a batalha para o câncer. Ele não consegue e, aí, liga o modo vida loka: decide viver em seus próprios termos, fazendo o que quiser. Em situação de honestidade radical, desfila agressividade e impropérios a colegas de trabalho, familiares, carteiros, crianças em idade escolar. Basicamente qualquer um que cruze seu caminho.

"Se a pessoa que mais amo morreu, qual o sentido em seguir vivo?" Questionamentos sobre a vida surgem quando faltam razões de curto e longo prazo para seguir adiante. Às vezes, o desaparecimento de alguém querido nos tira ambas. Perdemos os momentos cotidianos que fazem o dia a dia valer a pena e, também, os grandes projetos norteadores – quando entre esses projetos está passar a vida toda com quem se ama.

Como Gervais, Tony é um ateu convicto e o "além da vida" do título não tem nada de transcendental. Em trajetória niilista – se você não quiser spoilers (leves), talvez seja uma boa pular este e o próximo parágrafo –, o protagonista mergulha na violência e flerta com as drogas. Sua relação com um dublê de usuário/pequeno traficante praticamente implode qualquer possibilidade de empatia pelo personagem.

Mas Gervais testa a capacidade de perdoar, e o perdão vem. Equilibrando três pratinhos quase inequilibráveis – o do drama, o da comédia e o da filosofia –, Afterlife emociona, diverte e faz pensar. À exceção do último capítulo, as incursões pela pieguice são abreviadas por diálogos ágeis e humor autodepreciativo bem ao estilo britânico.

Para Tony, a opção pela vida é um processo, não um instantâneo. Aos poucos, ele supera o luto e passa a ver graça, novamente, nas pequenas coisas. Da dedicação da enfermeira ao pai com Alzheimer à gentileza do cunhado. Da caminhada na praia com o cachorro à reportagem com um menino que parece com Hitler (na verdade, é apenas um guri com franja e bigode pintado com lápis de olho, o que torna as coisas engraçadas de verdade).

Inevitável não pensar na própria vida e nas motivações para continuar. No meu caso, acho que as razões de longo prazo sempre estiveram presentes. Projetos pessoais e profissionais para tocar e uma vontade, ingênua e meio envergonhante, de mudar o mundo. Minha dificuldade sempre foi a felicidade cotidiana. Por sorte, nessa matéria, tenho e tive bons professores.

Minhas filhas, com sua alegria por tudo e por nada, são o exemplo da frase que abre esse texto. A felicidade dos filhos também é a felicidade dos pais – se não fosse isso, ninguém assistiria à Galinha Pintadinha de bom grado. Minha esposa, por sua alegria irritante a cada dia de Sol. E meu pai, por enxergar o tal lado bom mesmo com os dois pés atolados na merda. Na véspera de sua morte, desenganado pelos médicos na cama do hospital, mandamos às favas a dieta inútil e restritiva e oferecemos a ele qualquer comida de qualquer restaurante. Uma água com gás – "gelada" – foi o pedido. Tibiamente desrrosqueou a garrafinha, deu um gole curto e decretou seu último prazer nesta vida: "Delícia!".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Rodrigo Ratier é jornalista, professor universitário, pai de duas, curioso pela vida, entusiasta do contraditório

Sobre o blog

Olhares e provocações sobre a vida cotidiana: família, trabalho, amizade, educação, cultura – e o que vier pela frente