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Em Desconstrução

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Não é a Paulista: avenida que resume São Paulo é legal, mas pode ser melhor

Rodrigo Ratier

2024-01-20T19:11:22

24/01/2019 11h22

(Crédito: Marina Bessa)

Já ouvi alguns entusiasmados a chamarem de parque linear. Só na base do entusiasmo para reconhecer no lugar algo próximo dessa denominação. Tecnicamente, não se pode sequer falar em linha. Há dois trechos retos ligados por uma curva, perfazendo 2,6 km de extensão. Quanto às árvores: elas existem, é certo. São centenas, mas minoritárias em relação ao concreto das construções que a margeiam, do asfalto das seis faixas de rolagem e dos milhares de veículos que despejam fumaça por lá todo dia.

Ainda assim, a avenida Sumaré é o mais próximo de um parque à mão dos habitantes de uma porção montanhosa da Zona Oeste, dos dois lados de Perdizes e do Sumarezinho e da Barra Funda em suas extremidades. E ela cumpre sua função. Todos os dias, corredores, caminhantes e ciclistas dividem a desbotada ciclovia espremida entre os dois lados da pista para carros. Uma amiga alemã se espantou ao ver a foto do lugar: "Mas você corre aí?"

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Sim, corro na faixa de concreto oprimida pelo asfalto, respirando monóxido de carbono, materiais particulados e, ocasionalmente, um aroma de eucalipto que exala na metade do ladeirão. Também corro sobre um rio oculto e enterrado, cujas nascentes ainda brotam nos terrenos baldios adjacentes. No topo da subida, onde a Sumaré na verdade já se chama Paulo VI, a letra cursiva na placa improvisada de madeira anuncia que girinos mantêm uma minirrepresa livre de doenças: "Neste lago não tem dengue. É só alegria!"

Divido espaço com atletas bombados do crossfit, que arrastam pneus enquanto mal me arrasto pelos 800 metros de ladeira, gente fazendo selfie na frente de um escadão colorido que já esteve mais na moda, moradores de rua, vendedores de coco verde, ciclistas, um ou outro patinete (a febre ainda não chegou forte por aqui), corretores de imóveis tentando em vão entregar seus panfletos e pivetes que promovem assaltos ocasionais.

Corro, enfim, por um resumo de São Paulo. Como a cidade em que nasci e meu criei, a Sumaré é legal, mas poderia ser muito melhor. A avenida é um espelho da cidade em outros quesitos. Tem comércio, mas muitas lojas fechadas. Nos períodos mais agudos de crise, chegou a lembrar a Celso Garcia ou a avenida Santo Amaro, tamanho o número de placas de aluga-se. Recentemente, assumiu uma certa vocação hipocondríaca. O 1,1 km de seu trecho plano concentra nada menos do que sete farmácias. Há duas drogarias literalmente na frente uma da outra, e uma terceira ainda em construção – será a quarta loja da mesma rede na avenida. O que explica tanta demanda? Relaxante muscular para enfrentar o sobe-e-desce do bairro ou calmante para os tempos bicudos em que vivemos?

A ciclovia, estrela da companhia, já foi pior. Me lembro de ser quase intransitável quando me mudei para o bairro, sete anos atrás. E já foi melhor – vermelhinha, com uma tentativa de paisagismo logo abortado por uma longa estiagem de inverno. As praças ao longo do trajeto já viveram dias mais gloriosos. A irmãos Karmann, que minha filha Luiza chama carinhosamente de "parquinho da floresta" — homenagem infantil ao verde que cresce sem poda –, é pura resistência, e isso antes da palavra virar hashtag. A casa-escorregador perdeu a cobertura e o balanço. Mas segue lá, de pé, fazendo a alegria de quem se aventura a descer do topo ao chão de terra batida e cascalho.

Parque linear? Pois é. Quem sabe a definição não seja, assim, tão equivocada. A ciclovia da Sumaré é um bom exemplo do que São Paulo pode oferecer em termos de lazer. Não é o lugar dos nossos sonhos – a Sumaré dos meus sonhos, por exemplo, tem um VLT no lugar dos carros, o córrego correndo a céu aberto – limpo! –, pracinhas bem cuidadas, restaurantes interessantes, muita gente na rua. Mas é nosso parque possível, desleixado e insistente, feito de exercícios sob o ar poluído e a ameaça de assaltos. Não é mau, não é bonito. É um retrato das contradições que São Paulo produziu em seus 465 anos. Feliz aniversário.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Rodrigo Ratier é jornalista, professor universitário, pai de duas, curioso pela vida, entusiasta do contraditório

Sobre o blog

Olhares e provocações sobre a vida cotidiana: família, trabalho, amizade, educação, cultura – e o que vier pela frente