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Como o #elenão pode renovar a política brasileira

Rodrigo Ratier

01/10/2018 16h27

Mulheres protestam contra Jair Bolsonaro em Brasilia. Crédito: Antonio Cruz/Agência Brasil

O post no Facebook pede que as pessoas comentem com uma palavra o sentimento que ficou na cabeça após a manifestação "Mulheres Unidas Contra Bolsonaro". Nos 160 comentários, uma torrente de substantivos abstratos positivos: deslumbramento, alegria, diversidade, força, luta, afeto, otimismo, resistência, paz. Sob a bandeira do #elenão, as mulheres apontaram um caminho renovador para a política brasileira.

Organizadas em pouquíssimo tempo e com o suporte indispensável das redes sociais, as manifestações que ocorreram nos 26 estados e no Distrito Federal foram as maiores desde os protestos contra e a favor do impeachment. Antes do dia D, os eventos despertaram temores quanto à segurança. Temores justificados, aliás: protestos identificados com a esquerda têm sido alvo de pesada repressão. Na cobertura da greve geral de 2017, me vi no meio do fogo cruzado de batalhões da PM que tentavam dispersar os manifestantes atirando bombas de efeito moral de ambos os lados da Praça Panamericana, na zona Oeste de São Paulo. O histórico motivou a formação de redes de proteção por WhatsApp. E uma cartilha digital de recomendações: façam grupos, não se escondam em locais fechados, não levem crianças ao ato.

Felizmente, a paz reinou. Reinou também a tolerância entre grupos. Vi bandeiras do PT, PSOL, PC do B e PSTU. Mas também de Ciristas, Marinistas e de candidatos do PSB. Em outros atos pelo país, a imprensa relata material até mesmo do PSDB.

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Há dúvidas de que o #elenão tenha efetivamente furado a bolha da "elite de esquerda". Uma pesquisa da USP aponta que era justamente esse o perfil dos manifestantes no Largo da Batata, em São Paulo. A maioria dos presentes era de esquerda, branco, com escolaridade e renda elevadas. Apesar disso, acho injusto dizer que esse protesto foi mais do mesmo.

Primeiro, houve a presença das famílias. Crianças e idosos estavam em número muito maior do que o costumeiro nas manifestações de esquerda. A defesa dos direitos humanos – razão alegada pela maioria dos presentes, ainda segundo a pesquisa da USP – motivou muita gente a levar seus filhos e filhas para protestar. Encontraram na rua uma diversidade de posições, de mulheres que defendiam o direito ao aborto a cristãos contrários a Bolsonaro, de corinthianos em Bloco contra o "Coiso" a palmeirenses pedindo a saída de Felipe Melo do Palmeiras – o volante dedicou um gol ao candidato do PSL.

Segundo, o suprapartidarismo. Não há registro na história recente de convivência pacífica entre partidos de ideologias tão difusas como no #elenão. Vejo um grande avanço, por exemplo, em relação às exigências de apartidarismo em junho de 2013, que degeneraram inclusive em violência. Hoje se sabe que o clima de "fora todos" daquela época teve como um de seus principais efeitos o fortalecimento da extrema-direita no país.

Apostar no apartidarismo seria um contrassenso. A negação da política é um dos pontos-chave da retórica de
Bolsonaro (apesar de suas quase três décadas de vida pública). Suas bravatas de governar sem dialogar com o Congresso podem encantar quem está "cansado de tudo isso que está aí", mas são perigosos precedentes para soluções voluntaristas e autoritárias – como, aliás, já vem sendo assustadoramente ventilado por apoiadores do candidato, que falam abertamente em autogolpe e Constituinte "que não precisa ser feita por eleitos pelo povo".

Política se faz dentro e fora de partidos, mas não se faz sem partidos. No #elenão, houve sabedoria para acolher as diversas bandeiras partidárias – amigos eleitores de Ciro e de Amoedo me contaram que se sentiram muito bem durante o ato. Também houve sabedoria das bandeiras para não roubar o protagonismo do ato, que cabia e cabe às mulheres.

Faltaram, porém, as classes populares. Seja na vertente organizada (sindicatos, movimentos por terra e moradia etc.) ou avulsa (presença de moradores de áreas periféricas), elas não compareceram em peso ao evento. Há razões concretas para a ausência: sábado é dia de trabalho, as manifestações ocorreram em áreas centrais e as pautas ditas identitárias (feminismo, movimento negro e questão LGBT) ainda não estão fortemente difundidas entre os mais pobres. A situação econômica ainda parece ser o mais importante fator de escolha no voto das camadas vulneráveis.

Penso que o #elenão tem uma oportunidade de avançar se conseguir agregar a discussão trabalhista à sua pauta. A união de pautas identitárias e de classe é um dos grandes desafios da esquerda. A candidatura de Bolsonaro, afinal, parece conjugar o fascismo combatido pelas mulheres com uma plataforma econômica ultraliberal, que caminha no sentido de retirar direitos dos mais pobres – mesmo oficialmente desmentidas pelo capitão reformado, as críticas do vice Hamilton Mourão ao 13º salário e as declarações do economista Paulo Guedes sobre o IR com alíquota única de 20% sinalizam nessa direção. Também nessa seara, as propostas excludentes do candidato do PSL parecem capazes de galvanizar uma ampla oposição.

Resta, ainda, superar a denúncia e construir o anúncio: se #elenão, #oquesim? Mais do que o apoio formal a uma candidatura, o movimento tem diante de si a possibilidade de ajudar a pensar que tipo de país queremos construir. O #elenão já conseguiu muito. As tentativas de desqualificar a grandiosidade dos protestos classificando as fotos de multidões como "fake news" mostra que a extrema-direita sentiu o golpe. Minha esperança é que a iniciativa tenha potência para ir além, tornando-se um embrião para discutir um projeto de Brasil inclusivo e democrático. As cartas estão na mesa. Torço para que sejam bem jogadas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Rodrigo Ratier é jornalista, professor universitário, pai de duas, curioso pela vida, entusiasta do contraditório

Sobre o blog

Olhares e provocações sobre a vida cotidiana: família, trabalho, amizade, educação, cultura – e o que vier pela frente

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