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Cotas raciais: o medo dentro da faculdade também é racismo?

Rodrigo Ratier

05/08/2018 05h00

Crédito: Tulay Palaz/Freeimages

Deu no noticiário: o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), referência pública no ensino e pesquisa em diversas áreas da engenharia, vai passar a ter cotas raciais em seus cursos de graduação. A mudança vale já para o vestibular deste ano, ficando 22 das 110 novas vagas reservadas para pretos e pardos.

Uns dias depois, um amigo querido formado pelo ITA me enviou – consternado – uma carta redigida por alguns de seus colegas. No manifesto, subscrito por alunos e ex-alunos de 48 turmas, a política de cotas é duramente criticada. No final, os autores exortam o ITA, o STF e até o Congresso Nacional a promoverem "ações legais e procedimentais" contra o "deletério sistema".

O texto tem ao menos um mérito: está assinado. Em apenas 5 dias, 327 iteanos concordaram que valia a pena dividir a autoria do documento e se responsabilizar pelas opiniões ali expostas.

Todo o resto é bastante questionável.

A começar pelo ponto central, o de que as cotas – "flagrante injustiça", "irreversível para um número substancial de brasileiros", trechos em negrito no original – "degradariam o elevado padrão acadêmico da escola".

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Não é o que diz a maior parte dos estudos sobre o tema. Este aqui, um exaustivo levantamento com as notas do Enade, avaliação realizada no fim do ensino superior, observou desempenho equivalente entre cotistas e não cotistas.

O temor aumenta quando invocam o argumento de que justiça de verdade se baseia na meritocracia pura e dura – ou, como diz a carta, "critérios de mérito estritamente acadêmico" (em negrito e itálico no original). Não consigo ver justiça em considerar o resultado de chegada sem atentar para as condições de partida.

Que pretos e pardos, alunos de escola pública, habitantes de periferias e oriundos de classes populares começam a corrida pelas escassas vagas do ensino superior muitas casas atrás que alguém de classe média alta que estudou em escolas excelentes. Em grande medida, essa disparidade é fruto do acaso, que determina que alguns de nós tenhamos nascido em lares com boas condições e a grande maioria em entornos com enormes dificuldades.

Não há nada de meritório nisso. O mérito está em enxergar essa realidade e garantir ao menos uma mínima correção de oportunidades. É o que fazem as cotas: não premiam "vagabundos", mas a elite das pessoas com piores condições de partida. Gente que trabalhou sério e ralou muito, e teria ficado próximo da aprovação mesmo sem qualquer privilégio.

Os signatários da carta não ignoram que a lei pretende sanar problemas. Afirmam, com seu gosto especial pelo negrito, que apoiam "políticas públicas destinadas a corrigir desigualdades no acesso à educação". Quais seriam? Cotas sociais? Reserva de vagas para escola pública? Não. A sugestão é corrigir distorções por meio de uma "Educação Básica de qualidade", um caminho que pode reduzir as desigualdades daqui alguns séculos, talvez. Não podemos investir na escola pública e (me afeiçoei ao negrito) apostar nas cotas?

O que leva centenas de profissionais formados por uma instituição de ponta, cérebros privilegiados das exatas, a a defender argumentos pouco racionais e quase sem amparo nas evidências? Não consigo deixar de pensar que, no recurso à falsa oposição entre curto e longo prazo e na recusa a considerar os diferentes pontos de origem na competição, está o medo, consciente ou não, de perder privilégios. É verdade que, se quisermos construir um país menos obscenamente desigual, em algum momento precisaremos encurtar a distância entre pobres e ricos. Mas, no caso das cotas, quem teme perder os anéis pode ficar tranquilo.

Penso no meu próprio exemplo. Entrei em 1997 numa USP sem cotas – em 2019, serão 40% de vagas reservadas a estudantes de escolas públicas, pretos, pardos e indígenas. Passei em 10º lugar nos 45 postos reservados para o curso de jornalismo. Se não tivesse entrado, fosse em virtude das cotas ou por qualquer outra razão, provavelmente teria outras boas chances. Teria estudado em alguma outra boa faculdade. Venho de uma família de classe média com condições de pagar uma mensalidade não muito extorsiva.

Acho que o mesmo ocorre com os estudantes do ITA. A maioria tem outras fichas para apostar. No caso dos cotistas, ao contrário, a aposta é mais pesada, quase um "all in": o ingresso na universidade pública pode representar a chance de mudar de vida ou continuar na mesma. Quando ocorre a mudança, ela pode disparar um círculo virtuoso no entorno próximo ao estudante aprovado. Ao verem que um irmão, um colega, um conhecido conseguiu "chegar lá", estudantes de classes populares passam a enxergar uma possibilidade de futuro que antes não cogitavam. Começam a sonhar mais alto.

Apesar de tudo, o mundo se move. Torço para que os pretos e pardos aprovados por cotas em 2019 encontrem um ambiente menos hostil do que prenuncia a carta dos 327 iteanos. Felizmente, há outras cartas que nos dão esperança. Como esta aqui, do amigo querido que me contou essa história e, em seguida, decidiu repudiar o repúdio de seus colegas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Rodrigo Ratier é jornalista, professor universitário, pai de duas, curioso pela vida, entusiasta do contraditório

Sobre o blog

Olhares e provocações sobre a vida cotidiana: família, trabalho, amizade, educação, cultura – e o que vier pela frente

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