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Em Desconstrução

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As fake news estão cada vez mais fake e menos news

Rodrigo Ratier

09/11/2018 09h49

(Crédito: Bjorn de Leeuw/Freeimages)

Uma definição de fake news, digamos, clássica – se é possível chamar de clássico um fenômeno que em sua encarnação mais recente explodiu apenas dois anos atrás –, é a seguinte: notícias que viralizam em redes sociais, com informações comprovadamente falsas, quase sempre com autoria oculta e que imitam o formato jornalístico com a intenção de enganar.

Me ocupo desse último aspecto, a necessidade de se passar por jornalismo sério para convencer a audiência. Até recentemente, a produção de uma notícia falsa exigia estratégias de dissimulação relativamente complexas, como a criação de um site com um nome respeitável, que trouxesse em si os atributos tipicamente atribuídos ao jornalismo (independente, livre, imparcial, cético etc.), um logotipo bem desenhado, fotos verossímeis e um texto construído minimamente à moda de uma notícia.

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Imaginava-se que todo esse arsenal era necessário para enganar o público. Foi assim na eleição de Trump, em 2016, quando cerca de 80 mil posts, que chegaram a 126 milhões de americanos, trouxeram informações falsas contra a candidatura de Hillary Clinton.

Como acabei de escrever, imaginava-se que tudo isso fosse necessário. A eleição brasileira desafiou a ideia de que o conteúdo falso precisa de uma embalagem jornalística. Por aqui, o que se viu na terra sem lei do Whatsapp não foram exatamente notícias falsas, mas um tsunami de desinformação.

Falo em desinformação – um termo mais genérico para referenciar ruídos na comunicação –, e não em notícia falsa pelo simples fato de que as mentiras, agora, se parecem bem menos com notícias. Vídeos de anônimos desesperados em meio a suposto tiroteio culpando quem "protege bandido"; bizarras montagens de defensores dos direitos humanos recebendo Suzane Von Richthofen na saída da cadeia; memes opondo Brasil e Venezuela e associando-os a números de candidaturas; impropérios contra a Lei Rouanet ("essa mamata vai acabar!"). Mensagens com listas de comunistas, entre os quais insuspeitos como o Estadão (ou Esquerdão, para os autores) Folha de S. Paulo (a já popular Foice de S. Paulo), Miriam Leitão e Francis Fukuyama.

De modo geral, a eleição brasileira nos apresentou a um conceito de mentira que é mais fake e menos news.

Muita gente – eu incluído – custou a acreditar que esse tipo de tosquice pudesse influenciar as categorias de pensamento e, principalmente, as ações de alguém. As modernas teorias da comunicação há tempos abandonaram a ideia de manipulação e de que a audiência seria uma massa passiva que aceita tudo. Os receptores – que é como os estudiosos chamam leitores, ouvintes, internautas, telespectadores – seriam ativos, capaz de cruzar as informações que recebem da mídia com outras fontes (família, amigos, igreja, colegas de trabalho etc.). Construiriam, assim, suas próprias interpretações, o que reduziria enormentemente o tal risco de manipulação.

Mas as primeiras pesquisas sobre o assunto nas eleições brasileiras mostram que algo está fora da ordem. Exemplo expressivo: uma sondagem encomendada pela ONG Avaaz estima que praticamente todo (98%) o eleitorado de Bolsonaro teve contato com algum tipo de desinformação – e nove em cada dez (89%) acreditaram nas mentiras. É preciso, ainda, confirmar esse tipo de suspeita. Mas suponhamos que esteja correta, e que houve manipulação. Onde erramos?

Certamente há o chamado viés de confirmação: a pessoa tende a acreditar numa informação falsa e a passar para frente porque a lorota confirma sua visão de mundo. Mas há, também, a falta de competência para analisar informações. Tudo indica que há um contingente grande de pessoas que não estão preparadas para questionar nem mesmo mentiras contadas de formas tão simplórias como as que infestaram o Whatsapp.

Já sabíamos que havia no país uma extensa e capilarizada rede de disseminação de falsidades. A velha/nova descoberta, revelada pelas conversas do dia a dia, justificativa de votos e pelos primeiros estudos, é que há também uma audiência dócil e manipulável, disposta a se deixar enganar e pronta para se radicalizar.

É possível que a comunicação em rede – de todos para todos, em vez de um para muitos, como é o caso da mídia impressa, rádio e TV – seja uma novidade que as pessoas ainda estão buscando entender (a tese de que vivemos a "adolescência das redes sociais" e que um dia amadureceremos nossa relação com elas e, por consequência, nossas formas debater por meio delas).  Ainda assim, é desesperador, desanimador – em resumo, uma dor – assistir a essa degradação na circulação de informações. Penso em como ela revela o fracasso da escola. Sair dessa vai exigir tempo, paciência, inteligência e investimento. Em resumo: vamos precisar de muita educação.

Sobre o autor

Rodrigo Ratier é jornalista, professor universitário, pai de duas, curioso pela vida, entusiasta do contraditório

Sobre o blog

Olhares e provocações sobre a vida cotidiana: família, trabalho, amizade, educação, cultura – e o que vier pela frente