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Por que é tão difícil mudar o voto de outra pessoa?

Rodrigo Ratier

28/09/2018 04h00

Foto: Marcello eM/Freeimages

 

É desesperador. A sensação é de estar falando com uma porta, tentando dialogar com um mineral ou buscando obter uma resposta diferente de um robô em looping. Você ouve um conhecido dizer que vai votar em Fulano, você sabe que Fulano não presta, mostra elementos e evidências do que está dizendo… E nada.

A pessoa permanece impávida em sua crença no voto. Se o interlocutor em questão for polido – algo raro, hoje em dia – pode até te agradecer pelos palpites. Mas não muda de opinião. E quase nunca se preocupa em justificar a escolha.

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Virar o voto de alguém é muito difícil mesmo. Mas pode ser que você esteja tornando o difícil ainda mais complicado. Por exemplo, usando argumentos lógicos com pessoas que não são afetadas por eles.

Há uma certa ilusão de que o voto seja uma escolha 100% racional. Não é. Na verdade, o exame crítico é exceção. "A bibliografia mostra que pessoas com trajetória de associativismo – participação em igrejas, sindicatos, partidos e outros grupos de interesse – tendem a votar alinhados com a pauta dessas instituições", explica o cientista político Vitor Marchetti, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC). "Sobre o comportamento eleitoral das demais, ou seja, a grande maioria da população brasileira, é difícil dizer qualquer coisa".

Sentimentos fortes como medo e ódio, preconceitos e processos psicológicos de identificação e projeção podem dar as caras nas urnas. No fim das contas, uma votação pode ser definida por doses cavalares de emoção. "E a história do que efetivamente decidiu uma eleição geralmente só é contada algum tempo depois, quando as pesquisas acadêmicas conseguem indicar quais foram os fatores principais na escolha", afirma o professor da UFABC.

Vitor ainda lembra uma obviedade constantemente esquecida: "Só se muda o voto de quem está disposto a mudar de voto". Há pessoas – talvez você seja uma delas – que já estão bem decididas, e investir tempo no convencimento de alguém nessa situação é desperdício de energia.

Outro ponto importante diz respeito aos laços que você possui com o eleitor em questão. Gente mais próxima e com quem temos abertura para conversar são as pessoas com as quais podemos exercer maior impacto. A sociologia mostra que as ideias que mais impactam nossos modos de ser, agir e pensar são aquelas com que temos contato reiteradas vezes, durante um tempo longo de nossa vida. É por isso que a família, por exemplo, tende a influenciar nossa identidade de forma tão durável. E que para desconstruirmos determinados hábitos instalados desde a infância sejam necessários anos de divã…

Isso não significa que o textão de Facebook seja de todo inútil. As redes sociais são, hoje, uma arena importante do debate público. Só convém não se iludir quanto ao poder da militância de sofá. "É uma interação mais ligeira e distante em relação aos contatos cara a cara. A influência tende a ser bem menor", diz Vitor.

E aí chegamos a uma pergunta necessária: já que mudar o voto é tarefa complicada, de que adianta tanta saliva gasta com política? Melhor parar de debater?

"Não", diz Augusto Cuginotti, anfitrião de aprendizagem – profissional especializado em técnicas de diálogo e aprendizagem compartilhada. "Tenho tido conversas interessantes com eleitores do Bolsonaro, de quem discordo frontalmente". Augusto defende que, em vez de tentar convencer alguém a mudar – ou repreendê-lo pela escolha, o que pode até reforçar a opção –, é melhor encaminhar a troca de ideias por uma outra direção.

"Sempre que alguém me diz que vai votar no Bolsonaro, pergunto: por quê? Quero entender as justificativas, que são quase sempre emocionais". A escuta atenta é sucedida, então, pela expressão da opinião contrária, mas não de forma impositiva. "Deixo claro que não é minha escolha, que considero haver opções melhores e explico minhas razões, que são pessoais", afirma.

O papo não precisa parar por aí. Uma forma de avançar na conversa é tentar estabelecer um terreno comum, buscando alguma ideia com que ambos concordem. "Isso acontece quando digo, por exemplo, que nós dois queremos que o Brasil melhore", diz Augusto. Uma última alternativa, finalmente, é continuar aberto para o debate. "Sempre me despeço dizendo que, se a pessoa por acaso desejar repensar o voto, eu estou à disposição para seguir trocando ideias", finaliza.

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Sobre o autor

Rodrigo Ratier é jornalista, professor universitário, pai de duas, curioso pela vida, entusiasta do contraditório

Sobre o blog

Olhares e provocações sobre a vida cotidiana: família, trabalho, amizade, educação, cultura – e o que vier pela frente

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