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A felicidade dos outros irrita: já pensou em sair do Instagram?

Rodrigo Ratier

28/07/2018 05h00

Crédito montagem: Rodrigo Ratier

Hoje o post é para falar sobre felicidade no Instagram – reflexão fundamental, mas além de minhas possibilidades porque não tenho Insta (nem havia visto o assunto por esse prisma). Vocês estão em boas mãos, melhores que as minhas, com o texto da jornalista Marina Bessa. Tenho a sorte de tê-la como esposa.

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Desculpe, amiga, mas vou te bloquear no Instagram. O problema não é você, sou eu. Por mais que tente ficar feliz com suas conquistas e alegrias, sou uma alma invejosa. E é a inveja que me assola cada vez que suas fotos #semfiltro invadem o meu feed.

Não tenho maturidade para lidar com tanta felicidade. Meu cabelo nunca está tão sedoso, minha pele não é naturalmente radiante. A minha varanda não tem essa luz, minha casa é menos cool, e, por mais que eu tente, não consigo fazer pratos assim, simples, mas ao mesmo tempo sofisticados, gourmets, frescos, orgânicos.

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Acabei de ter minha segunda filha. Quer dizer, já faz seis meses. Mas a minha vida continua uma zona. Como quando dá, não raro a sobra do almoço das meninas. Muitas vezes de pé. Até tento passar maquiagem, mas o corretivo não está dando conta das olheiras adquiridas com as noites mal dormidas. Sim, a minha filha de seis meses ainda não dorme a noite toda. Ela é uma fofura, mas não é o tempo todo que estou transbordando de amor.

Muitas vezes, transbordo de leite, de cansaço, de ansiedade ­– tanta coisa pra fazer, meu Deus, prato pra lavar, roupinha pra esfregar, queria voltar a escrever, a fazer ginástica e estou aqui, balançando um bebê para todo o sempre. Minha filhinha é fofa, juro, mas não fica bem de laço no cabelo – desisti. E nunca sorri nas fotos. Geralmente está em casa, sendo torturada pela irmã mais velha e eternamente despenteada.

Veja, fiquei seis meses de licença. Uma dádiva. Mas não foram férias. Essas, só daqui um ano, talvez. E não vou ter grana para bancar um bangalô privê nas Maldivas, taças de champanhe no café da manhã e o pôr do sol mais incrível do Hemisfério Sul. Se tivesse o tempo e o dinheiro, ainda assim teria duas crianças em volta, então minhas manhãs começariam às 6h e o dia terminaria às 20h.

Seis meses de licença. Retomando agora o trabalho. Devagar, passos lentíssimos. Não estou conseguindo produzir o quanto eu gostaria, não estou conseguindo me vestir como eu gostaria, não estou conseguindo nem chegar no horário – eu que, você sabe, sempre fui britânica. Imagine almoçar com os colegas num Michelin, ser indicada a prêmios por reportagens geniais, tomar chope artesanal na Vila antes de voltar para casa.

Eu deveria ficar feliz com tanta beleza ao seu redor: você é mesmo incrível. Mas sou mesquinha. Cada scroll na tela do celular é uma marretada na minha autoestima. Só eu estou em casa nesse dia maravilhoso de sol? Só eu que não conheço o Marrocos? Só eu não sou convidada para festinhas incríveis com gente fina, elegante e capaz de fazer legendas espirituosas nas redes sociais? Só eu não consigo correr 10 quilômetros na praia aos domingos?

Antes do Instagram eu sabia que havia gente feliz. Mas achava que era uma felicidade básica, como a minha mesmo. Eventualmente, me sentia até mais feliz que a média. E péssimo dizer isso, mas a vida é feita de comparação. Há alguns anos, li um estudo que dizia que não é ter dinheiro que traz felicidade – é ter mais dinheiro que o seu vizinho. Mas acho que essa pesquisa está meio defasada. Felicidade é parecer que tem mais dinheiro que o seu seguidor. Que a sua grama está mais verde. Que sua cintura está mais fina. Que o seu espumante está mais gelado.

Não evoluí com as redes. Gostava mais do tempo em que a amiga rica escondia o sapato Chanel para não humilhar a amiga duranga. Vou te abandonar, mas a culpa não é sua. Sou eu que não consigo suportar a ostentação da felicidade alheia. E não é só você. Talvez até bloqueie a minha conta para ganhar um pouco de paz interior. Quem sabe assim sobre tempo para eu fazer uma escova no cabelo, colocar flores na casa e levar as filhotas de roupa engomada para um passeio no parque. Nesse dia, faço uma selfie despretensiosamente linda e, se você me der um like, voltamos a ser amigas.

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Sobre o autor

Rodrigo Ratier é jornalista, professor universitário, pai de duas, curioso pela vida, entusiasta do contraditório

Sobre o blog

Olhares e provocações sobre a vida cotidiana: família, trabalho, amizade, educação, cultura – e o que vier pela frente

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