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Em Desconstrução

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O que as crianças podem aprender ao ver suas professoras em greve

Rodrigo Ratier

15/05/2019 11h17

Na imagem, greve dos professores de SP em 2015. Neste ano, cortes são o mote da paralisação. (Crédito: Romerito Pontes/Flickr)

 

As primeiras palavras de Clara sobre a escola foram o nome de suas professoras: "Tati", "Ju", "Maria" e "Carol". Nomes próprios recém-pronunciados pela pequena de 1 ano, e sempre com muita empolgação. Além de uma conquista de comunicação, uma bebezinha semibanguela falando "Tatiiiiiii" com um sorriso no rosto é um reconhecimento às pessoas que se dedicam a ela cinco dias por semana, durante toda a tarde e parte da manhã.

São professoras como essas que estão nas ruas nesta quarta-feira contra os cortes na educação. Para pais e mães, há alguma dor de cabeça com a decisão: é preciso rever agendas e abrir espaço para cuidar dos pequenos com as escolas fechadas. Mas sublinhar o transtorno é uma chave de leitura estreita: põe a lógica do cliente, o "tô pagando" (impostos ou mensalidade) na frente de pessoas em geral admiradas por nossos filhos, e que são, a um só tempo, profissionais, trabalhadores – e também mães e pais.

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Poucos setores foram tão afetados pelas mudanças de ventos políticos e econômicos dos últimos tempos quanto a educação. Com cortes implementados desde o segundo mandato de Dilma Rousseff, o setor – que na realidade precisaria de mais recursos para dar o salto de qualidade que o país precisa – vem operando no limite. A tesourada de Weintraub/Bolsonaro vem como uma espécie de golpe de misericórdia: com o contingenciamento, muitas instituições correm o risco de não chegar ao fim do ano.

Acrescente ao caldeirão a demonização da docência, levada a cabo por movimentos – e por um governo – que enxergam o professor como doutrinador, e a reforma trabalhista, que ameaça tirar direitos via renegociação das convenções de trabalho de uma categoria historicamente desprestigiada (professores ganham até 39% a menos que profissionais de igual escolaridade). Pronto: eis um grupo pressionado – como tantos outros. Mas, como poucos outros, um grupo com razoável poder de mobilização, com sindicatos numerosos e organizados.

A indignação docente vem crescendo. À tradicional ação de redes públicas vem se somando a adesão de instituições particulares. Cobrindo a greve geral de 2017, entrevistei alguns professores de escolas particulares de elite, que organizavam movimentos de parada quase clandestinamente via WhatsApp. Quando os perguntei se não temiam os riscos, a resposta foi algo do tipo: "Não nos importa. A situação chegou num ponto que não dá mais".

Desde então, os professores se tornaram protagonistas em ao menos três momentos: a já citada greve geral de 2017, o movimento grevista que barrou modificações nas convenções de trabalho de 2018 e, agora, na primeira greve do governo Bolsonaro.

Balbúrdia ou resistência? É possível utilizar essa ocasião para aterrissar essas discussões na concretude. E também para apresentar aos filhos esses dilemas. Volto ao exemplo da Clara: professores e professoras de braços cruzados não são estranhos. São pessoas por quem ela tem afeto.

Por que não aproveitar esse momento para ouvir os argumentos de todos os lados, de professoras que decidiram parar, de diretores contrariados, de pais que se queixam da greve? Além dos protestos, há nas capitais rodas de conversa e assembleias escolares em que os prós e contras da paralisação são debatidos. Com um pouco de paciência e empatia, dá para transformar um dia de escolas fechadas, paradoxalmente, numa ótima oportunidade de educar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Rodrigo Ratier é jornalista, professor universitário, pai de duas, curioso pela vida, entusiasta do contraditório

Sobre o blog

Olhares e provocações sobre a vida cotidiana: família, trabalho, amizade, educação, cultura – e o que vier pela frente

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