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Em Desconstrução

Em Desconstrução

Por que as pessoas ainda são tão fascinadas pelo circo?

Rodrigo Ratier

2027-08-20T18:04:00

27/08/2018 04h00

A cidade é São José, município da grande Florianópolis, o local é o estacionamento de um shopping semivazio no entroncamento de duas rodovias, o dia é terça-feira. É noite, chove e venta. O aplicativo do Iphone marca 12 ◦C, mas a sensação é de metade disso. Ao lado de uma tenda azul e branca encardida, um letreiro gasto na carroceria do caminhão anuncia os horários de espetáculo do autointitulado "circo mais famoso do Brasil". Há um show às 20h30 e o faro jornalístico recomenda comprar um ingresso. Desembolso os 30 reais na bilheteria já imaginando o título da crônica para este espaço: "O dia em que fui a única testemunha no circo".

Caminho para dentro da lona e me surpreendo. O local está muito longe de estar lotado. Mas, ao contrário da minha suposição sensacionalista, também não está vazio. Na penumbra consigo contar 60 pessoas na plateia. Há bebês de colo, crianças entre 5 e 10 anos e adultos. Vendedores – que logo descobriremos serem também palhaços, mágicos e malabaristas do espetáculo – oferecem pipoca ("doce ou salgada", grita o homem com jaqueta do globo da morte), água, refrigerante e sabres de luz coloridos. O som mecânico toca "O Circo", na versão de 1986 do álbum Xou da Xuxa, e outras músicas infantis não muito recentes. Às 20h36, o duble de motoqueiro/pipoqueiro anuncia: "Partiu". Uma voz ao microfone dá início ao show.

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Um palhaço mudo convida uma mulher de minissaia ao palco para seu número com bexigas. O Superboy da cama elástica retorna minutos depois no papel de mágico. A contorcionista chilena é também partida ao meio no ilusionismo. Peperito, o palhaço cantor, ignora a goteira no picadeiro enquanto enfileira piadas do tipo é pavê ou pacumê. Tudo simples, com alguma precariedade e uma certa melancolia. Mas a audiência parece não se importar. Adultos e crianças riem e batem palmas. Me divirto também.

O que leva 60 pessoas a pagar um ingresso de circo numa noite fria e chuvosa numa cidade qualquer?

Há um que circo se renova, se abre à arte contemporânea, abraça a globalização com as franquias internacionais e se vende como um sofisticado espetáculo de elite. Mas naquela terça-feira a lona abrigava algo mais próximo do circo raiz, relegado à periferia de uma cidade pouco relevante, de apresentações tradicionais, saberes seculares com uma tentativa frustrada de atualização – como a acrobata se apresentando ao som de uma versão pirata de "Thank You", de Dido, no saxofone.

O encantamento, creio, não vem desse brilhareco moderno. O circo, mesmo o mais raiz, é também sofisticado. Seu poder vem de tocar, por meio da experiência artística, em temas e situações universais da vida humana.

O circo é uma expressão da liberdade, da vida itinerante de estar em cartaz por tempo indeterminado e com destino incerto. Sob essa trupe de marginais, no sentido mais generoso da palavra, paira uma atmosfera de medo e fascínio.

É o espaço da ilusão e de se questionar o que é verdade e o que é mentira. O jogo de revelações e ocultamentos que exige perícia e criatividade para seguir crível.

É abertura para o humor e para crítica, com a parvoíce irresponsável dos palhaços que dizem o que os outros não tem coragem de dizer. Faz pensar sobre os tipos sociais – e, mais recentemente, sobre o próprio humor. Que tipo de piada cabe num picadeiro – e por quê?

É também o lugar da audácia e da ousadia, da experimentação do corpo e do teste dos limites humanos. Num certo sentido, enfrentar o trapézio é desafiar a morte todos os dias da semana exceto às segundas. Três vezes por dia aos fins de semana.

Tanta coisa junta produz reflexão sobre o mundo e um encantamento nada desprezível. Uma amiga recém-retornada da Disney com dois filhos pequenos resolveu levá-los ao circo num fim de semana seguinte à viagem. Caiu na bobagem de perguntar aos meninos do que é que eles haviam gostado mais: da casa do Mickey ou do picadeiro? Pela resposta, ela poderia ter economizado boas horas de fila e alguns milhares de reais.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Rodrigo Ratier é jornalista, professor universitário, pai de duas, curioso pela vida, entusiasta do contraditório

Sobre o blog

Olhares e provocações sobre a vida cotidiana: família, trabalho, amizade, educação, cultura – e o que vier pela frente